CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2026 ALERTA PARA DÉFICIT HABITACIONAL NO RN

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A Campanha da Fraternidade 2026 foi lançada nesta Quarta-feira de Cinzas com o tema “Fraternidade e Moradia”, destacando o direito constitucional à habitação digna e o déficit habitacional no Rio Grande do Norte. A mobilização é coordenada na arquidiocese pelo padre Rodrigo Paiva e marca o início das ações da Igreja Católica durante a Quaresma.

Segundo o sacerdote, a escolha da data está diretamente ligada ao calendário litúrgico. “A campanha da Fraternidade está ligada diretamente à quaresma, justamente aquilo que vamos começar hoje, que estamos começando hoje, nesta quarta-feira de cinzas. Depois destes dias de folia, é a hora também de começarmos uma caminhada espiritual dentro deste processo dinâmico, litúrgico, pastoral e religioso que é a caminhada da quaresma.”

Ele explicou que a campanha representa um gesto concreto da espiritualidade cristã. “Como a campanha da Fraternidade é uma ação concreta da quaresma, é o nosso famoso gesto concreto daquilo que é espiritual, que transforma-se também em real, em concreto, na realidade da vida das pessoas, é que a campanha da Fraternidade, em sua maioria das vezes, é aberta na quarta-feira de cinzas, num dia como hoje.”

Padre Rodrigo lembrou que o tema já foi abordado em edições anteriores, como em 1993, e reforçou que o debate vai além da entrega de casas. “Não é somente fazer um favor de dar casa a pessoas, mas de assegurar o artigo 6º da Constituição Nacional que diz: todo cidadão brasileiro tem direito à moradia digna. É importante frisar o digna que faz toda a diferença, inclusive para o tema deste ano.”

De acordo com ele, a Igreja assume um papel de alerta social. “A gente não pode tirar o papel profético da Igreja de apontar soluções, de colocar em relevo dificuldades que a comunidade humana está vivendo e não podemos fechar os olhos para o problema habitacional no Brasil hoje que grita, principalmente nestes últimos dias de chuva que estávamos tendo, por exemplo, aqui em Natal.”

Ao explicar o lema da campanha, o padre destacou a relação bíblica com o conceito de habitação. “O verbo utilizado para a relação entre Jesus Cristo e os homens e mulheres deste mundo é justamente o verbo morar. Ele quis morar no meio de nós, entre as nossas realidades, naquilo que é o nosso cotidiano.” Para ele, isso reforça “a importância da habitação, do conceito de moradia como parte integral da vida humana”.

O coordenador também citou o legado do Papa Francisco no debate sobre direitos humanos. “A vida humana precisa de proteção. Ela precisa de cuidado. E o cuidado se reflete num sentimento e num modo de vida através do amor. E naquilo que seria uma edificação ou algo físico, a moradia. A moradia é a tenda que cuida da vida humana.” E completou: “Não tê-la é colocar a vida humana sempre em uma situação de tensão, de falta de alguma coisa.”

Durante a entrevista, foi destacado que o Rio Grande do Norte, mesmo sendo considerado um estado pequeno, apresenta déficit de cerca de 140 mil moradias, incluindo pessoas que vivem de aluguel, com parentes ou em situação de rua. Padre Rodrigo citou dados da Organização das Nações Unidas e afirmou que, no Brasil, “nós temos mais de 26 milhões de famílias que não têm moradia digna”.

Ele detalhou situações que caracterizam essa realidade. “Por exemplo, 15 pessoas morando em um quitinete. Ou uma palafita, como é o caso de algumas comunidades ribeirinhas na Amazônia, ou também diante de grandes rios, por exemplo, em Recife.” No contexto local, apontou fatores como especulação imobiliária e valorização dos aluguéis. “Isto inviabiliza, por exemplo, a moradia.” Também citou áreas de risco, como regiões próximas às lagoas de captação na Zona Norte de Natal.

Segundo ele, garantir direitos é responsabilidade do Estado, mas também depende da participação da sociedade. “É também uma reivindicação legítima de qualquer cidadão. Nós precisamos, principalmente através do voto, da escolha, da capacidade de produção de conhecimento, de produção de opinião, evidenciar temas como esse.”

Padre Rodrigo ressaltou que a campanha vai além do período quaresmal. Na Arquidiocese de Natal, as ações incluem atividades nas paróquias, celebrações litúrgicas e um seminário aberto ao público em formato híbrido. “A campanha da fraternidade não se resume à quaresma. Ela toma impulso na quaresma e ela precisa ir agindo durante todo o ano”, afirmou, lembrando que o estado enfrenta novos períodos de chuva a partir de julho.

“O Evangelho é direcionado diretamente a, por exemplo, problemas sociais”, disse o padre ao relacionar o tema à justiça social. “A redenção passa não somente por uma questão moral, ela é, inclusive, uma questão social. E, sendo a Igreja uma condutora desta experiência de Jesus Cristo, é nosso papel urgente evidenciar quando falta, manter quando tem e promover, principalmente, para aqueles que estão tendo os primeiros passos no que diz respeito aos direitos.”