TRANSMISSÃO: ANEEL APROVA EDITAL DE LEILÃO QUE PREVÊ R$ 570 MILHÕES NO RN

O edital do primeiro leilão de transmissão de energia elétrica de 2026, aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) nesta terça-feira (24), reacendeu as expectativas do setor de energias renováveis no Rio Grande do Norte, ao mesmo tempo em que não substitui a necessidade de uma expansão mais ampla da infraestrutura de transmissão para acompanhar o ritmo acelerado da geração renovável no Rio Grande do Norte, hoje um dos principais polos do setor no país. O certame está marcado para 27 de março de 2026, na sede da B3, em São Paulo, e inclui investimentos estimados em cerca de R$ 570 milhões no território potiguar.


De acordo com a Aneel, neste certame não há previsão de construção de novos quilômetros de linhas de transmissão nem de ampliação de capacidade de transformação no estado, o que limita o alcance estrutural das intervenções. Para o RN, os empreendimentos destinados estão concentrados no Lote 3, nos sublotes 3A e 3D, e preveem a implantação de dois compensadores síncronos em subestações de 500 kV: um na Subestação Ceará-Mirim II e outro na Subestação Assú III, ambos com capacidade de –200/+300 Mvar. Eles têm como finalidade aumentar a estabilidade do sistema elétrico e a capacidade de escoamento da energia gerada, especialmente em regiões com forte presença de fontes renováveis intermitentes, como a eólica e a solar.


O presidente da Comissão de Energias Renováveis da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), Sérgio Azevedo, diz que a comissão recebe o leilão com expectativa positiva, mas realista. “O setor de energias renováveis atravessa um momento desafiador, marcado por restrições operativas, episódios de curtailment, insegurança regulatória e dificuldade de novos investimentos. É um ciclo que exige respostas estruturantes”, afirma.

Sergio Azevedo, presidente da Coere/Fiern| Foto: Adriano Abreu


Ele avalia que a instalação dos compensadores em Ceará-Mirim e Assú ataca um dos principais problemas técnicos do sistema elétrico potiguar. “A implantação dos compensadores síncronos em Ceará-Mirim II e Assú III endereça uma das dores técnicas mais relevantes do sistema: a estabilidade e o controle de tensão em uma rede com alta penetração de fontes intermitentes. Esses equipamentos aumentam a confiabilidade da malha, fortalecem a capacidade de escoamento e criam melhores condições para a integração de novos projetos”, destaca.


Ainda assim, Azevedo pondera que os investimentos não resolvem, sozinhos, os entraves enfrentados pelo setor. “É importante registrar que essa medida, por si só, não resolve todos os entraves do setor. Precisamos avançar também em outras frentes, como planejamento coordenado da expansão da transmissão, soluções para o curtailment, maior previsibilidade regulatória e modernização do modelo comercial do setor elétrico como um todo, inclusive com relação à MMGD”, pontua.


Para ele, “o leilão é um passo importante e necessário, mas a retomada plena da confiança e do ciclo de investimentos no Rio Grande do Norte dependerá de uma atuação integrada entre governo, reguladores e agentes privados”.


Segundo a agência reguladora, os investimentos devem resultar na geração ou manutenção de aproximadamente 1.600 empregos diretos e indiretos, considerando obras, fornecimento de equipamentos e serviços associados. No cenário nacional, o leilão prevê nove lotes, com 859 quilômetros de linhas de transmissão e subestações que somam 4.350 MVA de capacidade de transformação.

APER vê cenário mais otimista


A leitura da Associação Potiguar de Energias Renováveis (APER) é mais otimista. O presidente da entidade, Williman Oliveira, avalia que os equipamentos previstos no edital podem reduzir um dos principais problemas relatados por geradores no estado. “Nossa visão é positiva. Esses compensadores, com toda certeza, visam estabilizar as redes de transmissão e devem ajudar muito quanto às demandas de injeção na rede, diminuindo a frequência de desligamento de geração de energia por excesso de energia injetada”, declara.

Williman Oliveira, presidente da Aper| Foto: Divulgação


Williman também defende a ampliação de investimentos no setor por meio de novos certames. “Quanto mais leilões para investimentos no setor, melhor. Temos muito o que desenvolver ainda no Rio Grande do Norte”, afirma.


Do ponto de vista do Governo do Estado, o projeto é considerado estratégico para sustentar a expansão das renováveis. Em entrevista anterior à Tribuna do Norte, o secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico do RN, Hugo Fonseca, ressaltou que a demanda pelos compensadores já havia sido identificada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e disse que as expectativas eram positivas.

“Esses equipamentos são fundamentais para melhorar a estabilidade do sistema elétrico, especialmente no cenário do Rio Grande do Norte, onde a expansão das fontes renováveis é tão grande”, afirmou o secretário-adjunto da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Norte (Sedec/RN).


Segundo o gestor, a execução do projeto tende a reduzir gargalos operacionais e criar um ambiente mais seguro para novos aportes. “Os compensadores síncronos vão contribuir para o controle da tensão e da estabilidade da rede, minimizando os cortes de energia que vêm sendo registrados, e isso conseqüentemente cria um ambiente mais seguro para novos investimentos em geração renovável”, concluiu.