
O número de salas de cinema em funcionamento no Brasil apresentou leve retração em relação ao ano anterior, em um cenário marcado por aumento nos investimentos públicos na produção audiovisual e redução no público das salas. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), acessados no fim de março, apontam que o país conta atualmente com 3.538 salas em operação. No fim de 2025, eram 3.545.
A redução ocorre em um contexto considerado contraditório pelo setor. Enquanto a produção audiovisual registra crescimento e maior volume de recursos públicos, o mercado exibidor enfrenta dificuldades. Segundo a Ancine, o público total de cinema foi de 126 milhões em 2024. No ano seguinte, o número de ingressos vendidos caiu para 113 milhões, uma redução de 10%.
Ao mesmo tempo, os investimentos públicos destinados à produção seguem em alta. Em 2025, a Ancine desembolsou R$ 1,41 bilhão em recursos, valor 29% superior ao de 2024 e 179% maior que o registrado em 2021. A maior parte desse montante é direcionada à produção de obras.
Diante desse cenário, exibidores passaram a questionar a distribuição dos recursos. Em 2023, 79% dos valores aportados pelo Fundo Setorial do Audiovisual foram destinados à produção de curtas, longas e programas de televisão, conforme relatório de gestão. Já os gastos com capacitação, festivais, eventos, comercialização e roteiro somaram, juntos, 2,5% do total.
O crescimento da produção também é refletido no volume de obras realizadas. Em 2025, foram produzidos oficialmente 3.979 filmes brasileiros, entre longas, médias e curtas-metragens, segundo o número de Certificados de Produtos Brasileiros emitidos. O total representa um aumento de 20% em relação a 2016, ou 644 filmes a mais em números absolutos.
Apesar disso, parte significativa dessas produções não alcança o público nas salas. De acordo com o Filme B, 54,7% dos filmes brasileiros lançados em 2025 não atingiram mil espectadores. Dos 11,9 milhões de ingressos vendidos para produções nacionais, metade foi concentrada em dois títulos: “O Auto da Compadecida 2” e “Ainda Estou Aqui”.
Diante das dificuldades, exibidores se reuniram no fim de março, em Salvador, durante o Festival Panorama, que chegou à sua 21ª edição. O evento abrigou também o Seminário de Exibição, criado no ano anterior, que discutiu o momento atual do setor.
Para Cláudio Marques, cineasta e diretor do Cine Glauber Rocha e do Festival Panorama, o crescimento nos investimentos para realizadores e produtores é resultado de um esforço de longo prazo. Ele aponta, no entanto, diferenças na organização entre os segmentos. “O produtor há décadas aprendeu a gritar, a fazer pressão. Coisa que o exibidor nunca fez. Na verdade, o exibidor sempre foi muito orgulhoso da sua capacidade de andar sozinho”, diz Marques. “O exibidor não tem o que o produtor sabe desde sempre, que precisa ter uma organização política.”
A demanda por maior articulação surge em um momento em que exibidores relatam dificuldades operacionais. Segundo representantes do setor, além da redução de público, há impacto de políticas como meia-entrada, gratuidades e exigência de cotas para filmes nacionais.
O debate ocorre também em meio a mudanças no financiamento cultural. “Nós estávamos acostumados a lutar por mais recursos, porque o Ministério da Cultura sempre foi paupérrimo”, disse Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura. Atualmente, segundo ele, há maior disponibilidade de recursos, mas falta definição de políticas públicas.
Como resultado das discussões, o seminário elaborou, pela primeira vez, uma carta com demandas do setor, a ser encaminhada ao Ministério da Cultura. Entre os pedidos está a destinação de 10% do orçamento anual do audiovisual brasileiro para políticas permanentes de acesso às salas e formação de público.
O documento também propõe a criação de um programa emergencial de R$ 120 milhões, com o objetivo de viabilizar o acesso de 10 milhões de brasileiros “das classes populares e estudantes às salas de cinema nacionais, priorizando as salas pertencentes a pequenos e médios exibidores brasileiros”.
Outra reivindicação apresentada é a definição de uma janela mínima de 180 dias de exclusividade para exibição nos cinemas.
O avanço das plataformas digitais também foi citado no debate. “Onde não há sala de cinema, o VoD consegue chegar. E esse é um argumento importante das plataformas para disputar a agenda no Congresso”, afirma Kátia Morais, professora da Universidade do Estado da Bahia.
O encontro ocorreu durante o 21º Panorama Internacional Coisa de Cinema, que reuniu profissionais do setor para discutir os rumos da exibição cinematográfica no País.