RENDA DOMICILIAR PER CAPITA DO RN É MAIOR DO NORDESTE DESDE 2018

O Rio Grande do Norte lidera o ranking regional de renda domiciliar per capita desde 2018. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o estado registrou renda domiciliar per capita de R$ 1.819 em 2025, quando a média nacional foi de R$ 2.316, variando de R$ 1.219 no Maranhão a R$ 4.538 no Distrito Federal. Contudo, na avaliação de especialistas, a distribuição de renda ainda expõe desigualdades no RN.

A trajetória potiguar nesse indicador de renda desde 2016 aponta para uma liderança que só foi rompida em 2017, quando o estado caiu para a 4ª maior renda domiciliar per capita do Nordeste. Em nível nacional, por outro lado, o RN nunca esteve entre as 10 maiores rendas por habitante, na série iniciada em 2014. A melhor posição do Estado potiguar foi a 12ª, em 2021.

O rendimento domiciliar per capita é calculado com base nas informações oriundas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e é divulgado pelo IBGE em cumprimento à Lei Complementar nº 143/2013, que mudou os critérios de rateio do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal (FPE).

Damião Ernane, chefe de disseminação de informações do IBGE-RN, explica que quanto maior a renda domiciliar per capita do estado, menor será o repasse do FPE para o ente federativo. Ele explica que a Pnad Contínua, pesquisa que começou em 2012, visita a mesma casa durante cinco trimestres seguidos e foca em captar os dados de trabalho e rendimento.

O cálculo deriva dos rendimentos brutos de trabalho e de outras fontes de renda, considerando todos os moradores, inclusive pensionistas, empregados domésticos e parentes dos empregados domésticos. “É uma divisão entre o total de rendimentos domiciliares, em termos nominais, e o total de moradores desse domicílio”, explica Ernane.

Ele observa que, ano a ano, as regiões Sul e Sudeste têm uma renda domiciliar per capita quase duas vezes maior do que a do Norte e Nordeste. “Isso mostra que, mesmo que todo mundo tenha evoluído, essa desigualdade entre os estados permaneceu”.

O fato de a renda domiciliar por habitante do RN ser a maior do Nordeste não quer dizer que o estado seja mais rico que os demais da região, apenas que esse indicador, isoladamente, é maior. “Quando se considera a questão de riqueza, tem que se levar em consideração todos os indicadores. Tem que se considerar, por exemplo, o PIB per capita”, afirma Ernane.

O IBGE-RN explicou à reportagem que o dado de 2025 foi divulgado em fevereiro em cumprimento à lei já citada. O indicador será comunicado novamente em maio e ainda será ponderado pela inflação. Por isso, ele pode mudar e não deve ser comparado à série histórica.

Análise do indicador

Thales Penha, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), observa que a melhoria no rendimento domiciliar per capita do RN, desde 2018, ocorre “na esteira da recuperação da capacidade fiscal do estado”.

Segundo ele, os anos de 2016 a 2018 foram críticos para a economia potiguar, com reflexos da crise econômica nacional e da crise fiscal interna. “O governo Robinson Faria atrasou várias folhas [de pagamento dos servidores públicos] e deixou de pagar muitos fornecedores”.

Com a recuperação e ainda convivendo com desafios fiscais, o estado vê uma tendência de aumento do índice de renda consolidada desde 2019. O ano de 2017 foi o único em que o rendimento nominal caiu de um ano para o outro (de R$ 919 em 2016 para R$ 845), empurrando o estado para a sua pior colocação nacional da série histórica, na 20ª posição (mesma de 2014).

O economista Arthur Néo, vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-RN), lembra que o funcionalismo público representa uma margem muito grande da renda potiguar, o que pode explicar a renda per capita ser mais elevada que em outros estados. “Tem municípios do Rio Grande do Norte que basicamente vivem do salário dos servidores municipais do estado e de programas sociais”, observa.

Para a Federação das Indústrias do Estado (Fiern), a liderança potiguar deve ser interpretada com cautela e em perspectiva comparativa mais ampla. Em 2025, esse rendimento atingiu R$ 1.819 no estado, enquanto o rendimento médio do trabalho formal foi cerca de R$ 2.706 – também liderando em nível regional.

“Esse desempenho não se traduz, necessariamente, em uma posição confortável do ponto de vista nacional. O estado ainda se encontra abaixo da média brasileira, que é de aproximadamente R$ 3.508. Esse contraste evidencia que a liderança regional decorre, em grande medida, de um patamar estruturalmente mais baixo de renda na região Nordeste”, diz o Observatório da Indústria Mais RN.

Ainda segundo o Observatório, a liderança não significa um avanço estrutural robusto. “Trata-se, em grande medida, de uma convergência ‘por baixo’, uma vez que tanto o RN quanto os demais estados do Nordeste permanecem abaixo da média nacional”, explica. “Também pode refletir limitações comuns à região, como baixa produtividade média, elevada informalidade e restrições na geração de empregos de maior valor agregado”.

Já Marcelo Queiroz, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio-RN), afirma que dois fatores explicam a renda potiguar: “a contínua geração de empregos formais no estado, com mais de 120 mil postos de trabalho abertos em cinco anos” e o peso da administração pública no RN.

Arthur Néo afirma que o crescimento da renda per capita não reflete diretamente melhorias na qualidade de vida das pessoas. É preciso, na sua visão, avaliar o contexto mais amplo, como o fato de o Rio Grande do Norte ser menos populoso e ter, no geral, poucas pessoas morando em um mesmo domicílio.

O presidente da Fiern, Roberto Serquiz, avalia que o dado da renda per capita, “quando observado de forma isolada, pode sugerir um cenário mais favorável do que o efetivamente vivenciado. No entanto, ao ser confrontado com indicadores como desigualdade de renda e posição no ranking nacional, surgem sinais de alerta que exigem uma interpretação mais criteriosa”.

Desigualdade socioeconômica persiste no RN

Apesar do índice positivo de renda, a desigualdade socioeconômica persiste no RN. O economista Arthur Néo lembra que é preciso avaliar a distribuição da renda, além do seu crescimento, por meio do Índice de Gini – indicador de desigualdade de renda, que varia de 0 a 1 (quanto mais próximo de 1, maior a concentração de renda).

“Se houve aumento de renda e diminuição do Gini, mais pessoas foram beneficiadas pelo aumento, via programas sociais ou mercado de trabalho. Se a renda e o Gini aumentam, houve crescimento, mas essa renda está concentrada, não está sendo distribuída para a população. E se a renda cresce e o Gini se mantém, não houve mudança estrutural”, detalha Néo.

Segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o Índice de Gini do RN (0,525) foi o quarto maior do Brasil em 2024, quando a média nacional foi de 0,506 e a região Nordeste teve o pior Gini (0,502). O número nacional foi o menor da série histórica iniciada em 2012.

“Boa parte dos grandes rendimentos estão concentrados nas grandes cidades [do RN], enquanto nas demais cidades o rendimento é muito baixo. Natal, Mossoró e Parnamirim têm rendimentos muito altos e puxam a média para cima”, explica Thales Penha.

Thales Penha: Natal, Mossoró e Parnamirim puxam a média do RN | Foto: Alex Régis

Para Néo, é preciso avaliar se o crescimento da renda foi real, descontando a inflação, e observar em que camadas sociais houve aumento de renda. Além disso, é preciso ver se houve melhorias na saúde, educação e segurança pública para mensurar se o crescimento de renda é sustentável.

Na avaliação de Penha, para reverter esse cenário de desigualdades é preciso rever a aplicação dos recursos públicos. “O RN gasta muito com o funcionalismo público, mas gasta mal […] O estado precisa gastar mais em infraestrutura e em educação, do ponto de vista de melhorar a qualidade técnica e a produtividade dos cidadãos potiguares”, afirma.

A secretária estadual do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (Sethas-RN), Iris Oliveira, cita ações da pasta para combater as desigualdades socioeconômicas. Segundo ela, nove políticas públicas geridas pela Sethas-RN repercutem no enfrentamento às desigualdades.

“As políticas públicas capazes de reduzir a desigualdade e enfrentar a pobreza são as políticas de transferência de renda como assistência social, educação, saúde, habitação e saneamento básico, políticas que envolvem moradia acessível e infraestrutura de saneamento, que melhoram diretamente a qualidade de vida”, diz ela.

Iris Oliveira (Sethas): RN tem buscado enfrentar as desigualdades | Foto: Cedida

Desnível regional

Os estados que lideram a renda domiciliar per capita no Nordeste e no Norte não alcançam sequer as marcas dos últimos colocados do Sul e Sudeste nos dados preliminares de 2025. O RN (R$ 1.819) e o Tocantins (R$ 2.036) ficam distantes dos valores de São Paulo (R$ 2.956) e do Rio Grande do Sul (R$ 2.839), por exemplo.

Entre 2014 e 2025, o rendimento variou nas cinco regiões brasileiras – cabe lembrar que o dado de 2025 ainda deve ser atualizado pelo IBGE. No Nordeste, o rendimento variou de R$ 461 no Maranhão (mínimo, também o menor do país) a R$ 802 em Pernambuco em 2014. Em 2025, foi de R$ 1.219 no Maranhão a R$ 1.819 no RN.

Arthur Néo destaca que o custo de vida em cada estado e em cada região apresenta diferenças por muitas vezes significativas. “O custo de vida no Centro-Sul é muito mais caro do que o do Nordeste. Além disso, a produtividade do trabalhador no RN tende a ser menor do que a produtividade do trabalhador no Centro-Sul – e a diferença está nos níveis tecnológicos”, afirma o economista.

RN: renda domiciliar per capita e índice de Gini

Desde 2018, o RN lidera o ranking de renda per capita no NE. No Índice de Gini, estado foi o 4º maior do Brasil em 2024

Evolução da renda domiciliar per capita no RN (2014 – 2025) / Colocação no NE

2014: R$ 695 / (4º lugar)
2015: R$ 819 / (2º lugar)
2016: R$ 919 / (1º lugar)
2017: R$ 845 / (4º lugar)
2018: R$ 956 / (1º lugar)
2019: R$ 1.057 / (1º lugar)
2020: R$ 1.077 / (1º lugar)
2021: R$ 1.109 / (1º lugar)
2022: R$ 1.267 / (1º lugar)
2023: R$ 1.373 / (1º lugar)
2024: R$ 1.616 / (1º lugar)
2025: R$ 1.819 / (1º lugar)

Índice de Gini em 2024
RN: 0,525*
Nordeste: 0,502
Brasil: 0,506

*Quanto mais próximo de 1, mais desigual é a distribuição de renda

Fonte: IBGE e Ipea