PAIXÕES PELAS QUADRILHAS JUNINAS CELEBRA A TRADIÇÃO E ATRAVESSA GERAÇÕES NO RN

As coloridas saias rodadas e os chapéus de palha são símbolos de resistência de uma cultura que celebra a força das quadrilhas e ganham forte expressão no mês de junho ao recriar a história do povo nordestino. Para muitos, além da cultura que celebra danças regionais, comidas típicas e trajes repletos de cor e identidade, o São João também engloba desafios para manter sua tradicionalidade, tornando-se um símbolo de resiliência.


Conforme explica Alex Melo, diretor administrativo e financeiro da Liga Independente de Quadrilhas Juninas do Rio Grande do Norte (Liquajutern), em todo o Estado, há cerca de 80 quadrilhas em atividade, além de 68 filiadas à Liquajutern. “Hoje, a falta de políticas públicas voltadas para a cultura junina é o maior e principal desafio do movimento. A construção da base é importante para a continuidade e preservação das quadrilhas juninas. Precisamos alcançar as crianças e os jovens ainda dentro das escolas para impulsionar os grupos juninos”, declarou.


De acordo com Alex Melo, que atua neste segmento há mais de 17 anos, além dos projetos de incentivo e captação de recursos municipais e estaduais, alguns gestores públicos, por meio de parcerias com a Liquajutern, têm incentivado os grupos juninos de suas cidades com recursos próprios. Ele destaca ainda que, apesar de as cidades adeptas desse estímulo financeiro serem minoria, houve um avanço no ano passado e neste ano; no entanto, o diretor destaca que as quadrilhas ainda tentam, de forma independente, alternativas para garantir o seu fomento.


“Os grupos realizam rifas, bingos, eventos, alguns cobram mensalidades. Mas é necessário entender que a essência dos festejos juninos não são as grandes bandas nacionais, que muitas vezes se apresentam por duas horas e recebem verdadeiras fortunas até mesmo adiantadas, enquanto as quadrilhas juninas, com apoios vergonhosos para realizarem temporadas de apresentações que duram mais de 30 dias de atividades, recebem meses após os festejos”, revela.


Apesar dos obstáculos e dificuldades, segundo o gestor, os grupos se mantêm entusiasmados por mais um ano, levando sua paixão para o público por meio da expressão artística. “As expectativas são as melhores, pois grande parte dos festivais está buscando reconhecer e valorizar as quadrilhas juninas através de premiações consideráveis”, detalha.

Regionalidade e resiliência


Para alguns quadrilheiros, a dedicação não é apenas sazonal; trata-se de um árduo trabalho ao longo do ano e que, por muitas vezes, se inicia após um período extenso de apresentações. Os preparativos da quadrilha Brilho da Lua, que há mais de 31 anos, mantém sua tradição viva no bairro Nossa Senhora da Apresentação, na Zona Norte de Natal, iniciaram em novembro do ano passado, das coreografias aos debates sobre a escolha do tema e demais adereços representativos que irão compor os trajes de seus mais de 60 dançarinos, numa equipe composta por pelo menos 80 integrantes.

Segundo Ivanilson da Silva, de 47 anos, presidente e marcador da tradicional quadrilha, os grupos são símbolos de persistência e inspiração. “Essa quadrilha começou só com irmãos e primos. Então, hoje, da fundação só existo eu, e a gente trata muito isso como uma resistência. Nos ensaios a gente faz isso para que eles se sintam tão confortáveis que, se a gente disser ‘uma lata vai bater’, eles estão lá, porque se sentem acolhidos”, detalha.


Conforme Ivanilson da Silva, os ensaios acontecem em uma escola pública do bairro e a colaboração é fomentada por meio de uma integração entre os quadrilheiros e a instituição, sendo uma força-tarefa quando esses espaços precisam de alguma assistência no dia a dia. Segundo o marcador, a vivência dos dançarinos e tudo o que envolve suas vidas dentro e fora dos ensaios também é uma temática que os aproxima e os faz analisar a importância de cada singularidade e expressão artística. “Este ano nosso tema diz que ‘se na sua casa tem São João, na nossa também tem, mas é do nosso jeito’, porque cada casa ‘brinca’ de um jeito, e quisemos trazer isso para que cada um sinta o São João”, reitera.


Ivanilson afirma que os quadrilheiros garantem o funcionamento do grupo por meio de rifas e eventos para angariar fundos, inclusive para as próprias viagens municipais para participar de outros eventos alusivos.

“Brilho da Lua só se mantém com rifa, fazendo bingo e eventos; o poder público dá uma ajuda também, mas ainda não dá para manter os custos”, expressou. Ivanilson pontua ainda que, apesar das dificuldades, os quadrilheiros estão se empenhando para executar o trabalho que há três gerações consolidou também a sua história. “Vamos fazer um São João muito lindo”, destaca.

Um amor hereditário pelas quadrilhas

Para algumas pessoas, a paixão pelas tradicionais quadrilhas surge nas apresentações em meio ao brilho, às cores e a todo o movimento artístico que compõe desde a confecção dos figurinos ao passo final de cada coreografia. Para Clara Gilmara, de 21 anos, foi nos bastidores, desde a infância vendo sua mãe, Nanda Maria Barbosa da Silva, de 50 anos, dançar, que a paixão cresceu em seu coração. Este é o primeiro ano em que ela participa efetivamente como quadrilheira e compõe oficialmente o grupo de dançarinos.

Amor pelo período junino começa dentro de casa| Foto: Adriano Abreu


“A quadrilha veio de geração em geração na nossa família, que já tinha dançado na Brilho da Lua em gerações anteriores. De tanto observá-los, eu gostei e me envolvi”, pontua. Ela, que atua na área têxtil, se diz empolgada por finalmente sair da torcida ao ver seus familiares participando do movimento para participar de forma mais expressiva, vencendo as próprias barreiras. “Tem vários obstáculos, mas a forma de a gente vencer é praticar bastante; nos finais de semana, a gente vai praticando. Aprende a se vestir, a dançar, a girar, dançar de sandália de couro, de salto.”


Apesar do símbolo, Clara afirma que as quadrilhas ainda são uma forma de arte que resiste ao tempo, sendo este um dos principais desafios dos quadrilheiros: manter as tradições que, com o passar dos anos, veem-se cada vez mais ameaçadas com as mudanças sociais e culturais. “A quadrilha em si é muito bonita e a maior dificuldade é a aceitação das pessoas, que não conseguem ‘cultuar’ as quadrilhas por mais tempo como era feito antes.”


Para Clara, não há palavras para definir esse amor que cresceu ao seu redor ao longo da vida. “O São João é um sentimento. Ele salva as pessoas de diversas formas. A emoção é gigantesca de estar ‘de dentro’ do São João e não tenho nem palavras para descrever o que é o São João para quem está participando”, pontua.


Além do berço materno para a arte junina, Clara Gilmara também cresceu vendo seu primo Anderson Barbosa, de 30 anos, atuando nas quadrilhas; isso a impulsionou ainda mais a seguir o que entendeu como um chamado. O autônomo também se sentiu inspirado por sua tia Nanda, desde criança vendo-a dançar na quadrilha, mas, há 7 anos, uma amiga que o convidou para assistir a uma apresentação mudou sua vida, reforçando o pertencimento que ele diz sentir até hoje.

“É gratificante, vamos começando aos poucos, vai surgindo mais gente e vêm os amigos que tenho desde que entrei no primeiro ano. Cada um sai de sua casa, deixando de participar de eventos de família para estar na quadrilha; é maravilhoso o tipo de amizade que a gente cria”, diz.

Festival de Quadrilhas


Com mais de R$ 120 mil em prêmios, o XXXVI Festival de Quadrilhas Juninas de Natal, realizado no Palácio dos Esportes, no final de junho, já conta com normas estabelecidas para as competições das modalidades Tradicional e Estilizada. Os grupos serão julgados por um comitê composto por cinco avaliadores especialistas em cultura popular, folclore, dança, música e design.

Os critérios de pontuação — que variam de 8 a 10 — incluem coreografia, figurino, evolução, animação, originalidade e criatividade. Os prêmios contemplam as categorias tradicional e estilizada, além de gratificações individuais para Melhor Rei, Melhor Marcador e Melhor Casal de Noivos.

Economia junina
Segundo pesquisa do Instituto Fecomércio, em 2025, o São João de Natal movimentou R$ 188,6 milhões durante os dias de evento e recebeu, conforme dados da Prefeitura de Natal, 938,5 mil pessoas.

O estudo apontou que, ao todo, quase 96% dos entrevistados manifestaram o desejo de retornar ao São João de Natal em ocasiões futuras. Em relação ao perfil do público, 64,4% eram residentes e 35,6% correspondiam a visitantes e turistas. O levantamento também apontou que 96% dos presentes eram do RN, sendo que, desse total, 64% moravam na capital.