
O Rio Grande do Norte vai ganhar um mapeamento inédito de suas comunidades tradicionais. O projeto “Mapa do Axé Potiguar – Cartografia dos Terreiros e Comunidades Tradicionais do Rio Grande do Norte” será lançado oficialmente no próximo dia 27 de junho, com o objetivo de identificar, registrar e salvaguardar os povos de terreiro e as comunidades de matriz africana e ameríndia presentes em todo o estado. A iniciativa busca combater a invisibilidade histórica e o racismo religioso.
A pesquisa vai além da simples localização geográfica. Ela registrará as trajetórias históricas desses terreiros e comunidades, suas genealogias religiosas, relações comunitárias e os principais desafios enfrentados por esses povos. Entre as questões abordadas estão o acesso à segurança alimentar, a regularização fundiária, a assistência social e o constante enfrentamento ao racismo religioso.
O projeto adota uma metodologia de cartografia social, que entende o território como um espaço de memória, pertencimento, espiritualidade, identidade cultural e construção coletiva de saberes. Essa abordagem participativa visa dar voz e reconhecimento às comunidades, que muitas vezes não são plenamente reconhecidas pelos mapas oficiais.
O lançamento oficial do “Mapa do Axé Potiguar” acontecerá durante o III Fórum Estadual das Comunidades Tradicionais de Terreiro do RN, no Complexo Cultural da Zona Norte, Campus da UERN Natal.
Mapear para visibilizar
Historicamente, as comunidades tradicionais de matriz africana foram submetidas a processos de silenciamento, perseguição religiosa e apagamento institucional. Embora desempenhem papel fundamental na preservação da cultura, da memória e da diversidade brasileira, esses grupos seguem frequentemente ausentes das estatísticas oficiais e dos instrumentos de planejamento público.
Para os idealizadores do projeto, produzir conhecimento sobre esses territórios é também um gesto de reparação histórica.
A iniciativa parte de um princípio fundamental: a ausência de dados produz invisibilidade institucional, e a invisibilidade compromete o acesso a direitos e políticas públicas. Nesse sentido, o projeto busca reunir informações qualificadas sobre os territórios tradicionais, suas histórias, linhagens religiosas, práticas culturais e demandas sociais, contribuindo para a formulação de ações governamentais mais justas e efetivas.
“Mapear é reconhecer. É afirmar que esses territórios existem, resistem e produzem vida. Quando uma comunidade aparece nos dados, ela passa a existir também para o Estado. E quando ela existe para o Estado, torna-se possível reivindicar políticas públicas, investimentos e proteção de direitos”, destaca a coordenação do projeto.
Cartografia social: territórios narrados por quem os vive
Diferentemente da cartografia tradicional, baseada predominantemente em levantamentos técnicos e georreferenciados, a cartografia social adotada pelo projeto é construída de forma participativa, com protagonismo das próprias comunidades.
O território deixa de ser apenas um ponto no mapa para ser compreendido como espaço de ancestralidade, memória viva e produção cultural. São as lideranças, sacerdotes, sacerdotisas, praticantes e moradores que ajudam a construir os dados, compartilhar histórias e definir as formas de representação desses espaços.
Essa metodologia fortalece processos de auto-organização comunitária e produz um retrato mais fiel da realidade dos povos tradicionais, respeitando suas formas próprias de existência, organização e transmissão de conhecimento.
Uma rede estadual de pesquisa e mobilização
O Mapa do Axé Potiguar é resultado da articulação de uma ampla rede composta por mais de 70 colaboradores distribuídos em todas as regiões do Rio Grande do Norte, entre pesquisadores, estudantes, agentes territoriais, lideranças religiosas e representantes de movimentos sociais.
A iniciativa é coordenada pela Assessoria de Educação para as Relações Étnico-Raciais (ASERER) do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), com fomento do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), do Governo Federal.
O projeto conta ainda com a parceria estratégica da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), da Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento Tecnológico do RN (FUNCERN) e do Grupo de Articulação das Matrizes Africanas e Ameríndias do RN (GAMA/RN).
A presença do IFRN em seus 22 campi e a atuação dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABIs) fortalecem o alcance territorial da iniciativa, conectando a produção científica às experiências concretas das comunidades tradicionais em todo o estado.
Dados confiáveis e letramento racial
Os dados produzidos pela pesquisa serão disponibilizados em um documento digital, concebido como instrumento permanente de consulta, monitoramento e fortalecimento das comunidades tradicionais.
Além de subsidiar gestores públicos e pesquisadores, o documento contribuirá para processos contínuos de educação antirracista, valorização da diversidade cultural e preservação do patrimônio imaterial potiguar.
Ao reunir ciência, tecnologia, participação popular e ancestralidade, o Mapa do Axé Potiguar se apresenta como um marco na produção de conhecimento sobre os povos tradicionais do estado, reafirmando que reconhecer territórios é também reconhecer histórias, direitos e futuros possíveis.
SERVIÇO
O quê: Lançamento do Projeto “Mapa do Axé Potiguar – Cartografia dos Terreiros e Comunidades Tradicionais do RN”
Quando: 27 de junho de 2026, das 14h45 às 17h00
Onde: Complexo Cultural da Zona Norte – Campus da UERN Natal
Evento: III Fórum Estadual das Comunidades Tradicionais de Terreiro do RN
Inscrições: Gratuitas