
Nesta segunda-feira (28), Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites Virais, o Rio Grande do Norte reforça o desafio de ampliar a identificação de pessoas infectadas que ainda desconhecem o diagnóstico. Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça gratuitamente vacinação contra a hepatite B, testes rápidos e tratamento para as hepatites B e C, especialistas alertam que o maior obstáculo para eliminar a doença como problema de saúde pública até 2030 continua sendo localizar os casos silenciosos antes que evoluam para complicações graves.
Dados do Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap) mostram que o Rio Grande do Norte registrou cerca de 2.575 casos confirmados entre 2015 e 2025. A hepatite C responde pela maior parte com 1.518 (59,0%) dos casos. Já entre janeiro e abril de 2026, foram identificados 114 casos, mostrando um aumento de 17,6% em comparação com o mesmo período de 2025, quando foram registrados 97. Apesar dos números oficiais, especialistas avaliam que o total de pessoas infectadas é maior, uma vez que boa parte das pessoas infectadas convivem durante anos com o vírus sem apresentar sintomas.
Diretor do Hospital Giselda Trigueiro, referência estadual no tratamento de doenças infectocontagiosas, o infectologista André Prudente explica que o comportamento silencioso das hepatites crônicas faz com que muitos pacientes descubram a doença apenas quando o fígado já apresenta danos. “As hepatites B e C podem permanecer anos ou até décadas sem sintomas. Quando não tratadas, podem evoluir para cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado”, afirma.
Segundo o médico, a recomendação atual é ampliar a testagem para além dos grupos considerados de maior risco. “Todas as pessoas deveriam fazer o teste para hepatites virais, principalmente para hepatites B e C. Existem grupos mais vulneráveis, mas qualquer pessoa pode estar infectada.”
Entre os grupos prioritários estão profissionais de saúde, policiais, pessoas com múltiplos parceiros sexuais, usuários de drogas injetáveis, pessoas que receberam transfusão sanguínea antes da década de 1990 e até ex-atletas que compartilharam seringas para aplicação de medicamentos ou vitaminas.
O advogado Bartolomeu Aquino é uma das pessoas que precisou de transfusão de sangue antes de 1990, quando se submeteu a uma cirurgia. Sem saber, contraiu hepatite C. “Naquela época não se fazia triagem do sangue. Isso só começou após 1994. Eu só vim descobrir a doença quando fui doar sangue em 2005”, conta. “Fui imediatamente tratar. Os antirretrovirais evoluíram bastante. Antes se fazia com vários tratamentos para conseguir a cura e hoje se faz com um.”
Curado há duas décadas, Bartolomeu hoje atua em campanhas de conscientização e afirma que o maior desafio continua sendo encontrar quem ainda desconhece estar infectado. “O grande problema hoje é a busca ativa. Como é uma doença assintomática, muita gente só descobre quando já desenvolveu cirrose ou câncer. As secretarias municipais de saúde precisam intensificar essa busca ativa”, sugere.
Para ele, as campanhas educativas ainda são insuficientes. “Precisamos de campanhas permanentes e não apenas durante o Julho Amarelo. A Organização Mundial da Saúde estabeleceu a eliminação das hepatites até 2030, mas dificilmente alcançaremos essa meta se continuarmos nesse ritmo.”
Durante o Julho Amarelo, ações de conscientização foram intensificadas no estado por entidades como a Associação dos Portadores de Hepatites do RN (Aphern), o Movimento Brasileiro de Hepatites Virais (MBHV) e o Movimento Nacional de Doenças Negligenciadas (MNDN). Em Natal, o Pórtico dos Reis Magos e a Ponte Newton Navarro receberam iluminação amarela para chamar a atenção da população para a campanha.
Tratamento e prevenção
Enquanto a hepatite B ainda não possui cura definitiva, os medicamentos disponíveis conseguem controlar a multiplicação do vírus e impedir a progressão da doença. Já para a hepatite C, o cenário mudou completamente nos últimos anos. “O tratamento dura entre 12 e 24 semanas e apresenta taxa de cura superior a 95%, com poucos efeitos colaterais”, destaca André Prudente.
Na prevenção, a principal ferramenta continua sendo a vacinação contra a hepatite B, disponível gratuitamente pelo SUS nas unidades de saúde. Segundo o infectologista, pessoas acima de 40 anos merecem atenção especial, pois muitas não receberam a vacina durante a infância, quando ela ainda não fazia parte do calendário nacional de imunização. “Hoje praticamente não vemos hepatite B em pessoas vacinadas quando crianças. Por isso é importante que quem não recebeu a vacina procure uma unidade de saúde.”
Falta de informação ainda é principal barreira
A presidente do Movimento Brasileiro de Hepatites Virais, Neide Barros avalia que o Brasil já dispõe praticamente de todas as ferramentas necessárias para eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública.
Ela aponta que o principal desafio atual está na falta de informação e na natureza silenciosa da doença, que impede que as pessoas busquem o diagnóstico precoce, embora ainda existem barreiras logísticas pontuais de acesso no fluxo de atendimento. “Como falta conscientização sobre a recomendação de realizar o teste pelo menos uma vez na vida, muitos pacientes só descobrem o problema em estágios avançados.”
Outra estratégia considerada fundamental é ampliar a busca ativa em populações mais vulneráveis, como pessoas privadas de liberdade, população em situação de rua, usuários de drogas, comunidades indígenas e quilombolas, além do rastreamento de familiares e parceiros de pessoas já diagnosticadas.
Segundo Neide, experiências adotadas em outros estados mostram que descentralizar a testagem para as Unidades Básicas de Saúde aumenta significativamente o número de diagnósticos precoces e reduz a transmissão da doença. “Para localizar casos silenciosos de hepatites B e C, é preciso descentralizar a testagem por meio da oferta universal de testes rápidos nas rotinas de saúde, intensificar a busca ativa em populações vulneráveis e rastrear contatos próximos de pacientes já diagnosticados.”
A Organização Mundial da Saúde estabeleceu como objetivo reduzir em 90% os novos casos e em 65% as mortes provocadas pelas hepatites virais até 2030. Na avaliação dos especialistas, o Rio Grande do Norte possui estrutura para avançar, mas ainda precisa ampliar significativamente a cobertura da testagem e da vacinação contra a hepatite B.
Para ela, os maiores desafios para o Brasil eliminar as hepatites virais até 2030 são a baixa testagem e o diagnóstico tardio, a cobertura vacinal insuficiente em algumas regiões e o estigma social. O Ministério da Saúde do Brasil reforça que a meta exige reduzir novos casos em 90% e mortes em 65%.
BOX | Perguntas e respostas
Quem deve fazer o teste?
Embora existam grupos considerados de maior risco, especialistas recomendam que todo adulto realize pelo menos um teste para hepatites B e C ao longo da vida, mesmo sem apresentar sintomas.
Onde fazer?
Os testes rápidos são oferecidos gratuitamente pelo SUS nas Unidades Básicas de Saúde, Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e serviços especializados.
Quem corre maior risco?
Profissionais de saúde, pessoas com múltiplos parceiros sexuais, usuários de drogas, quem recebeu transfusão sanguínea antes dos anos 1990, pessoas privadas de liberdade e quem compartilha objetos perfurocortantes, como alicates, lâminas e agulhas.
Existe vacina?
Há vacina contra a hepatite B, disponível gratuitamente pelo SUS para todas as idades. Ainda não existe vacina contra a hepatite C.
Existe cura?
A hepatite B pode ser controlada com medicamentos, reduzindo o risco de cirrose e câncer. Já a hepatite C apresenta cura superior a 95% dos casos com os antivirais atualmente disponíveis pelo SUS.