VEÍCULOS ELÉTRICOS AMPLIAM DEMANDA POR MÃO DE OBRA QUALIFICADA NO RN

A expansão dos veículos eletrificados começa a mudar o perfil dos profissionais que trabalham com automóveis no Rio Grande do Norte, a exemplo do que vem acontecendo no restante do país. Oficinas, concessionárias e empresas ligadas à infraestrutura de recarga precisam se adaptar a uma tecnologia que exige conhecimentos diferentes dos utilizados nos veículos convencionais, principalmente em sistemas elétricos de alta tensão, baterias, eletrônica e procedimentos específicos de segurança.

Para quem trabalha em oficinas, a mudança significa aprender a lidar com componentes e procedimentos que não fazem parte da rotina de um automóvel convencional. Jairo Filho, 31 anos, cresceu dentro de uma oficina mecânica da família, mas sua experiência profissional está principalmente ligada à lanternagem e à pintura. Ao se aproximar da nova tecnologia, percebeu que o veículo elétrico exige cuidados adicionais. “Meu pai tem uma oficina mecânica, então eu nasci e me criei dentro de uma oficina, embora eu seja da área voltada para lanternagem e pintura… Um carro elétrico tem determinado serviço, exige um cuidado, um detalhe a mais que pode ser criterioso”, afirma.

Um dos principais pontos de atenção está na tensão elétrica dos sistemas de propulsão. O contato inadequado com esses componentes pode representar risco para o trabalhador, o que torna necessário seguir protocolos antes de iniciar determinados serviços. “A questão de energia, bateria que passa dos 500 volts, e num curto ela pode ser fatal… em 500 volts ele pode chegar a incendiar, tirar vidas”, alerta Jairo.

Por isso, a adaptação das oficinas não se resume à compra de equipamentos ou à identificação de novos modelos de veículos. O profissional precisa saber como desligar e isolar o sistema de alta tensão, interpretar informações técnicas e utilizar equipamentos de proteção adequados. Também muda o tempo necessário para realizar determinados serviços. “Na oficina, já chegam carros para reparo na pintura, por exemplo, e o reparo de um veículo elétrico não é o mesmo preço que um veículo a combustão… é necessário a desenergização… mais tempo, e tempo é dinheiro”, explica Jairo.

A preocupação também chegou às concessionárias. Jefferson Oliveira, 33, trabalha há cerca de 12 anos em concessionárias e acompanha a mudança dentro do setor. Na unidade onde trabalha, os modelos híbridos já fazem parte da rotina, enquanto os veículos totalmente elétricos ainda não chegaram. “Elétrico ainda não, mas já estamos trabalhando com veículos híbridos”, conta. Mesmo assim, a preparação já começou. “Nosso chefe tem estimulado os profissionais a se atualizarem. É uma área nova, totalmente diferente da nossa mecânica normal. Então tem que ter um cuidado maior”, afirma.

A antecipação é uma estratégia que também aparece entre profissionais que ainda não trabalham diretamente com automóveis. Daniel Raycar, 26 anos, atua na área militar e tem experiência com refrigeração. Ele diz que decidiu buscar conhecimento sobre veículos elétricos antes que a nova tecnologia se torne uma demanda cotidiana. “Quando surgiu o mercado de energia eólica, quem se preparou ou quem sabia alguma coisa já estava na frente e se deu muito bem. Agora vejo da mesma forma: quem se adiantar no mercado de veículos elétricos, sai na frente”, diz.

Para ele, a expansão da frota deverá trazer consequências para o mercado de manutenção à medida que os veículos acumularem tempo de uso. “Está chegando muito carro elétrico. Daqui a pouco, quando ele ficar mais usado, vai precisar de uma manutenção mais frequente, de profissionais que realmente entendam”, afirma.

A formação profissional, entretanto, não se limita ao interior das oficinas. A expansão da frota também exige uma rede capaz de fornecer energia aos veículos. Segundo a ABVE, o Brasil já tinha pelo menos 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga em agosto.

Jairo Filho: carro elétrico exige cuidados diferentes dos convencionais. Foto: adriano abreu

Crescimento

O movimento acompanha o crescimento acelerado das vendas. Dados da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE) mostram que o Brasil chegou a 950.183 veículos eletrificados leves em circulação até agosto de 2026. Somente nos oito primeiros meses do ano foram 328.477 emplacamentos, volume 160,5% superior ao registrado no mesmo período de 2025. Em agosto, os eletrificados responderam por 22% das vendas de veículos leves no País.

No Rio Grande do Norte, a expansão ocorre em ritmo ainda mais acentuado. Segundo dados da ABVE, 3.822 veículos elétricos foram comercializados no Estado no primeiro semestre de 2026, crescimento de 242,78% em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume já superava todas as vendas registradas no RN durante 2025. Natal também aparece entre os 20 municípios brasileiros com maior número de vendas.

A dimensão do mercado ajuda a explicar por que a qualificação deixou de ser uma preocupação apenas para o futuro. A própria ABVE projeta que o Brasil deverá terminar 2026 com cerca de 450 mil veículos eletrificados leves comercializados. Em agosto, foram 57.386 emplacamentos, alta de 184% em relação ao mesmo mês de 2025.

Daniel Raycar vê nos elétricos um oportunidade de qualificação. Foto: adriano abreu

Senai-RN amplia formação para atender avanço

A necessidade de preparação já aparece nos cursos oferecidos por instituições como Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-RN), ligado à Federação das Indústrias do RN (Fiern). A entidade oferece a formação “Manutenção segura em veículos elétricos e híbridos (N1 e N2)”, com 100 horas e aulas teóricas e práticas. O programa de educação profissional voltado à eletromobilidade foi lançado pela instituição em 2024, a partir de parcerias com a Alemanha. “O curso foi estruturado com base em pesquisa de mercado e nos treinamentos que os docentes do Senai fizeram”, explica Davinson Rangel, instrutor de Educação Profissional e Tecnologias do Centro de Tecnologias do Gás e Energias Renováveis (CTGAS-ER), do Senai-RN.

A formação atende não apenas quem já trabalha diretamente com manutenção. A turma aberta em agosto reuniu profissionais de concessionárias e oficinas mecânicas, empresários, engenheiros, aposentados e pessoas interessadas em mudar de carreira. Os alunos tinham entre 20 e 78 anos. Davinson conta que essa já é a segunda turma e que, diante da procura, o Senai anunciou uma nova turma com 20 vagas para este semestre. “Já tivemos alunos da parte de venda de autopeças, para entender um pouco do veículo, saber quais componentes, funcionamento e ter essa noção para fazer a venda no mercado”, conta.

Agora, diz que o perfil da turma atual é diferente. “Temos mais mecânicos fazendo atualização para trabalhar com veículo elétrico. Esse mercado está bem aquecido, e os próprios mecânicos já relatam essa procura. Por isso estão buscando capacitação, para não perder essa oportunidade de serviço.”

A variedade do público mostra que a transformação provocada pela eletromobilidade não está restrita à mecânica. Profissionais que atuam com instalações elétricas, projetos, locação de veículos e gestão de oficinas também precisam compreender o funcionamento dos novos automóveis e os equipamentos associados a eles.

O próprio conteúdo do curso do Senai acompanha essa mudança. A programação inclui princípios de eletricidade, medidas elétricas, normas técnicas e regulamentadoras, uso de equipamentos de proteção, desenergização de veículos de alta tensão, inspeções e manutenção preventiva e corretiva, entre outros temas.

Cresce demanda por profissionais de recarga

O mercado em ascensão abre espaço para outro grupo de trabalhadores: os responsáveis pela instalação e manutenção dos equipamentos de recarga. No Campus Parnamirim do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), uma formação específica foi criada para essa área. O curso de Instalação e Manutenção de Infraestrutura de Carregamento de Veículos Elétricos, oferecido pelo programa Qualifica Mais ENERGIFE, tem 160 horas, duração aproximada de três meses e 45 vagas gratuitas. Para participar, é necessário ter pelo menos 18 anos e ensino médio concluído.

A formação amplia o conceito de profissional necessário para sustentar a eletromobilidade. “Entre as pessoas interessadas… alguns profissionais que já têm experiência… como eletricistas, mas principalmente são pessoas que nunca atuaram no setor e estão buscando uma qualificação”, explica Erika Moreira, coordenadora do curso.

Ela diz que, ao concluir o curso, o egresso deverá estar apto para instalar e realizar manutenção de equipamentos e estruturas para abastecimento de veículos elétricos, atendendo às normas técnicas, de qualidade e de segurança vigentes. “Também poderá empreender, organizar e gerir serviços especializados de instalação e manutenção no setor produtivo de mobilidade elétrica”, conta.

A existência de cursos diferentes para manutenção dos veículos e para infraestrutura de recarga mostra que a transformação do mercado automotivo começa a produzir uma cadeia de competências que vai além da substituição do motor a combustão por sistemas elétricos, com expectativas de oportunidades no mercado de trabalho. “A área de eletromobilidade está em evidência e existe uma demanda por profissionais que possam atuar na instalação e manutenção da infraestrutura de carregamento de veículos elétricos.”, diz a coordenadora.