CENSO ESCOLAR APONTA QUEDA DAS MATRÍCULAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA NO RN

O número de matrículas na educação básica do Rio Grande do Norte registrou queda em 2025. Conforme os resultados da primeira etapa do Censo Escolar 2025, o total de alunos caiu de 783.190 em 2024 para 756.434 em 2025, uma redução de 26.756 matrículas, puxada principalmente pela retração na rede pública.

Com queda de 3,4%, o RN supera a média nacional, que registrou redução de 2,29% nas matrículas em relação a 2024. Em todo o país, o recuo representou 1,082 milhão de alunos a menos. Os dados incluem tanto as redes regulares e privadas, além das modalidades de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e da educação especial.

Na rede estadual, o total de alunos passou de 196.764 em 2024 para 182.461 em 2025, uma queda de 14.303 matrículas. Uma redução de cerca de 7%. A maior parte dos alunos está no Ensino Médio.

Em nota, a Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e do Lazer do Rio Grande do Norte (SEEC) informou que a queda, em termos absolutos, está associada a dois fatores: diminuição da população em idade escolar e melhoria do fluxo escolar, com redução de repetência e maior progressão dos estudantes ao longo das etapas, condição não exclusiva do RN.

“Diante dos resultados, a SEEC informa que segue intensificando o acompanhamento dos dados por território e por etapa, com prioridade para ações de permanência e trajetória no ensino médio, a exemplo das ações do projeto Gestão para Aprendizagem, com monitoramento de fluxo e estratégias de prevenção ao abandono, o fortalecimento da EJA, com medidas de mobilização, reengajamento e ampliação de condições de acesso e permanência”, diz a nota.

Nas redes municipais, em 2024, eram 412.035 estudantes matriculados, número que caiu para 392.208 em 2025. A diminuição foi de 19.827 alunos, o que representa uma retração de cerca de 4,8%. A maior parte das matrículas se concentra nos anos iniciais.

Enquanto a educação básica na rede pública do RN registrou queda nas matrículas em 2025, a rede privada apresentou crescimento. O número de alunos aumentou de 157.325 em 2024 para 167.393 em 2025, um acréscimo de 6,4%.

Os estudantes estão distribuídos em 3.368 escolas públicas e privadas no RN. Emmanuelle Araújo, professora de Educação da Universidade Potiguar (UnP), avalia que a redução no número de matrículas na educação básica pode estar associada à transição demográfica e à queda na taxa de natalidade, vivenciada pelo Brasil nos últimos anos.

“Além disso, fatores socioeconômicos também exercem influência significativa. Situações de vulnerabilidade social, desemprego e migração interna de famílias em busca de melhores condições de trabalho podem alterar a dinâmica populacional e refletir nos números da matrícula escolar”, explica.

De acordo com Araújo, para que as matrículas voltem a crescer, não basta ampliar vagas. “É fundamental fortalecer políticas de permanência, investir na formação continuada dos professores, aprimorar a qualidade pedagógica e tornar o currículo mais significativo para os estudantes.”

Segundo ela, é necessário dar suporte à escola, e não apenas oferecer vagas. A articulação entre escola, família e rede de proteção social também é decisiva, principalmente nos contextos de maior vulnerabilidade.

Evasão escolar

Conforme Emmanuelle Araújo, a evasão escolar é um dos fatores que podem contribuir para a redução no número de matrículas, especialmente nas etapas finais da educação básica. “O Ensino Médio é, historicamente, a etapa com maiores índices de abandono, realidade evidenciada em levantamentos nacionais do INEP”, pondera.

Segundo ela, nessa fase, muitos jovens passam a conciliar estudo e trabalho, enfrentam desmotivação com um currículo pouco conectado às suas perspectivas de vida ou acumulam defasagens de aprendizagem que não foram superadas ao longo do percurso escolar.

“Entre os principais motivos que levam estudantes a abandonar a escola estão a necessidade de inserção precoce no mercado de trabalho, dificuldades de aprendizagem não acompanhadas de forma adequada, baixa identificação com o currículo escolar e contextos de vulnerabilidade social”, comenta a educadora.

Araújo revela que o abandono da escola está associado a diversos fatores: “A evasão raramente ocorre por um único fator; ela costuma ser resultado de múltiplas fragilidades que se acumulam ao longo do tempo, incluindo questões socioemocionais e ausência de políticas consistentes de permanência.”

Infraestrutura

Dados do Censo Educacional do Inep mostram que 59% das escolas da rede pública do Rio Grande do Norte possuem acessibilidade, enquanto 41% contam com biblioteca. Em relação à estrutura pedagógica, 26% das unidades dispõem de laboratório de informática, 11% têm laboratório de ciências e 22% contam com quadra de esportes. O acesso à internet está presente em 98% das escolas públicas.

Na rede privada, o levantamento aponta que 74% das escolas possuem acessibilidade e 72% contam com biblioteca. Além disso, 25% dispõem de laboratório de informática, 24% de laboratório de ciências e 44% possuem espaços destinados à prática esportiva. Assim como na rede pública, 98% das instituições privadas têm acesso à internet, segundo o censo.

Mudanças de conjuntura

A Secretaria Municipal de Educação (SME) avalia que a redução de matrículas representa um ajuste pontual da demanda. “Equivalente a aproximadamente 2% do total da rede, não configurando impacto estrutural no sistema”, disse em nota.

Segundo a pasta, os números representam uma reorganização territorial da oferta, a movimentação natural de estudantes entre redes e a readequação da modalidade EJA.

A secretaria informou que tem ampliado vagas na Educação Infantil, além de expandir o tempo integral e reforçar a busca ativa, com o objetivo de recompor a demanda.

A União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação do Rio Grande do Norte (Undime/RN) avaliou que o fenômeno “não está relacionado à falta de acesso à escola, mas a mudanças estruturais no perfil demográfico e à transição entre as etapas de ensino”.

Ainda segundo a Undime, queda contínua no número de nascidos vivos e na população em idade escolar, especialmente nas faixas de 0 a 4 anos e de 15 a 17 anos. “Com menos crianças e adolescentes no estado, há naturalmente menos estudantes ingressando e permanecendo na educação básica”, afirmou em nota.