SINDSAÚDE CRITICA DESABASTECIMENTO EM HOSPITAIS DA REDE ESTADUAL

O Rio Grande do Norte enfrenta um momento crítico nos hospitais da rede estadual por falta de insumos. A situação, alvo de uma decisão da 5ª Vara da Fazenda Pública de Natal que apontou um “cenário de colapso progressivo” na saúde, é enfrentada de perto por pacientes e profissionais da área. Segundo o Sindsaúde, faltam itens como cateteres, sabão, álcool, antibióticos, heparina (medicamento anticoagulante), gazes e outros. O Walfredo Gurgel, referência em trauma-ortopedia no RN, é a unidade mais afetada, onde as tomografias computadorizadas com contraste foram suspensas no início do mês por falta de bombas injetoras.

A lista de insumos em falta é extensa. De acordo com o sindicato, faltam também lençóis, óleo mineral (ofertado a pacientes com prisão de ventre), óleo de girassol para curativos, equipo (dispositivo utilizado na dieta de pacientes) e crepom. Uma funcionária do setor de materiais do Walfredo Gurgel disse à reportagem que os kits usados em cirurgias, conhecidos como ‘laps’, estão em péssimo estado. “Além disso, esse é um material que precisa de reserva para casos de emergência – são necessários pelo menos dois lápis-reserva, mas não temos nenhum”, contou a funcionária sob condição de anonimato.

Elizabeth Teixeira, diretora do Sindsaúde, denunciou que médicos do Walfredo chegam a tirar dinheiro do próprio bolso para comprar alguns itens. “Isso tem ocorrido no Centro de Queimados, que está sendo improvisado em uma área do hospital depois que iniciaram uma obra no setor e que já se arrasta há um ano. Por lá falta crepom, usado em ataduras em pacientes queimados. A falta de insumos é uma realidade que se agrava no Walfredo Gurgel, mas que não é difícil de encontrar também em hospitais como o Maria Alice Fernandes, por exemplo”, afirma.

A reportagem esteve no Maria Alice, unidade pediátrica localizada na zona Norte da capital, para entender a situação atual. Há cerca de 15 dias, a Justiça Federal ordenou que sete leitos de UTI do hospital fossem desbloqueados, os quais estavam inoperantes por falta de insumos e materiais básicos. Uma funcionária ligada à direção disse que, no momento, a unidade não enfrenta bloqueios e negou que existam itens em falta. Já no Walfredo, uma enfermeira contou que os problemas dependem de cada setor.

“Onde eu atuo, por exemplo, estava faltando álcool, mas hoje [quinta-feira, 28] apareceu. A situação é sempre essa: hora os insumos vêm, hora faltam. Só sei que é muito complicado trabalhar assim”, disse, também sob anonimato. Para os pacientes e familiares, o cenário não é menos caótico. A gerente Danielle Kaline, de 28 anos, havia dado entrada no Pronto Socorro Clóvis Sarinho, no Walfredo, por volta das 10h30 da manhã desta quinta com o pai, vítima de engasgo.

“Ele recebeu os primeiros atendimentos e agora aguarda para fazer uma endoscopia. Tenho ouvido falar dessa falta de material e estou apreensiva porque não sei se isso vai afetar a assistência ao meu pai”, contou. Já a dona de casa Priscila Caetano, de 31 anos, conhece muito bem os problemas do Walfredo. Ela está com a mãe na unidade há quatro meses. “Mamãe teve um AVC e veio para cá. Nesses quatro meses, vários dos medicamentos faltaram”, diz.

De acordo com Priscila, até pouco tempo o hospital não dispunha de um remédio para convulsão, que a mãe precisa tomar. “Nesse período também faltou uma pomada para assadura, que é bastante cara, custa em torno de R$ 130”, relatou. Elizabeth Teixeira, do Sindsaúde, disse que a categoria irá realizar uma assembleia na próxima segunda-feira (1º) para discutir a situação e propor um indicativo de greve. “O Governo do Estado não sinaliza nenhuma melhora nesse quadro, então, a alternativa é falar em paralisação, porque os funcionários estão trabalhando em situação-limite”, afirmou Elizabeth.

Questionada sobre a situação em toda a rede e sobre qual o planejamento para resolver os problemas, a Sesap respondeu citando apenas o Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel. Em nota, a pasta afirmou que “não procedem as faltas relativas ao abastecimento do hospital”. Segundo a Secretaria, “nunca foi registrada falta, por exemplo, de gazes ou óleo mineral, bem como há estoque de álcool, sabão, laps e outros itens, tornando improcedente a lista apresentada. Sobre as angiotomografias, estão sendo todas realizadas em outros hospitais da rede estadual, não tendo, portanto, registro de desassistência aos pacientes”.

Ainda segundo a Sesap, a respeito da situação registrada no Hospital Geral João Machado, “conforme manifestação anterior da Secretaria à época do episódio no início de agosto, boa parte da alimentação fornecida na unidade é produzida por uma empresa contratada, que entrega as refeições lacradas para consumo. Diante do registro apresentado, a Secretaria notificou a empresa responsável e acionou a Vigilância Sanitária para a apurar a situação”.

O presidente do Conselho Regional de Medicina do RN (Cremern), Marcos Jácome, disse ter conhecimento da situação devido às constantes fiscalizações realizadas que comprovam a carência de materiais básicos na rede estadual de saúde. Jácome informou que o Cremern ingressou com uma ação na Justiça Federal para buscar reverter a situação e falou que acompanha o quadro. “O objetivo da ação é cobrar da Sesap o abastecimento regular e completo dos hospitais, garantindo um atendimento digno à população e melhores condições de trabalho para os médicos”, esclareceu.