
Os recentes aumentos dos preços dos combustíveis têm afetado caminhoneiros e motoristas que trabalham em plataformas de transporte por aplicativo no Rio Grande do Norte, representando a maior parte dos custos mensais que esses profissionais têm com o veículo. A Cooperativa de Caminhoneiros Autônomos do Rio Grande do Norte (Coopcam-RN) estima que, com a disparada no preço do diesel, os gastos com combustível respondem por cerca de 88% dos custos totais. A Associação Voz dos Trabalhadores por Aplicativos Potiguar (Avap-RN), por sua vez, calcula que, para motoristas de app, combustível e manutenção respondem, juntos, por 75% das despesas totais.
O temor, conforme os relatos, é que as atividades percam viabilidade diante da disparada de custos. Valdir Pereira, presidente da Coopcam-RN, disse que os gastos com o aumento do diesel já superam, inclusive, as despesas com manutenção. “Para se ter uma ideia, o preço de um pneu de uma das principais marcas oscila entre R$ 3,3 mil e R$ 3,8 mil. Para um caminhão do tipo truck, que necessita de 10 pneus para rodar, o proprietário precisa desembolsar acima de R$ 35 mil. Mas, a depender do tipo de carga transportada, esse mesmo caminhão vai rodar um ano sem ter que trocar os pneus. Já o custo com diesel para ir do RN a São Paulo e voltar, é de R$ 100 mil”, descreve Valdir.
“Então, existe um custo muito elevado com combustível. Se nada mudar, os caminhoneiros serão obrigados a parar, porque não existe condição nem mesmo para as transportadoras arcarem com as despesas. Uma ou outra vai conseguir se manter e, ainda assim, sem poder pagar um salário digno para o caminhoneiro”, acrescenta.
De acordo com Gilvan Sarinho, presidente da Avap-RN, a situação também é de muita preocupação para trabalhadores de plataformas de transporte por aplicativo. “A gente notou recentemente que alguns postos reduziram os preços, mas outros não. Até o GNV [Gás Natural Veicular], que é aqui do nosso estado e é encanado, está muito caro. Nossos gastos totais são de 75%, sendo que a maior parte é direcionada aos combustíveis. O motorista fica apenas com 25% do que fatura, então, muitos deles estão deixando de rodar. Isso precariza muito o serviço”, afirma Gilvan, ao citar ainda que a estagnação das tarifas repassadas pelas plataformas aos trabalhadores agrava a situação.
Se os preços continuarem subindo e a saída de motoristas do serviço seguir em alta, de acordo com Gilvan, o risco é de que outro problema surja: o encarecimento dos serviços para os usuários. Deixar o trabalho de transporte de passageiros por aplicativo é uma possibilidade que o motorista Douglas Matheus, de 26 anos, cogita desde o início do ano. Ele diz que, com o aumento dos combustíveis – ele utiliza GNV e gasolina – os custos com o veículo, que já eram altos, tiveram um salto ainda maior.
“Dirijo há cinco anos em um app de corridas, mas agora penso em sair. Fiz um curso de refrigeração automotiva e pretendo deixar o aplicativo este ano ainda. Os gastos são muito altos. Não compensa continuar”, falou.
Quem também tem repensado sobre a permanência ou não na atividade é Francimar Meira, de 36 anos. “Hoje, 40% dos custos são com combustível. O app tem a vantagem da flexibilidade de horários e isso tem feito eu ficar por enquanto, mas a situação está muito difícil. Para tentar compensar, a gente é obrigado a ficar mais tempo na rua”, conta ele, que abastece com GNV e álcool.
O caminhoneiro Francisco Canindé Dias, de 41 anos, também reclama e avalia que a situação está ficando insustentável. “O preço do diesel pesa muito no bolso, respondendo por 50% dos meus custos mensais com o caminhão. Quando a gente coloca tudo na ponta do lápis, o que sobre de lucro é apenas cerca de 20%. Na quarta-feira [25], abasteci em João Pessoa [PB] para uma viagem aqui para Natal. Deu R$ 750. Antes desse aumento, daria em torno de R$ 550, ou seja, está R$ 200 mais caro. Isso porque eu abasteci na Paraíba, que é mais barato. Por outro lado, o frete não reage, com os preços sem nenhuma alteração. Se continuar do jeito que está, os caminhoneiros vão parar, não porque querem, mas porque não será mais possível trabalhar”, relata Francisco.
De acordo com um levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), o preço no atacado do diesel S10 cobrado pelas distribuidoras para os postos de combustível saltou 24,98%, na média nacional, no acumulado das três primeiras semanas deste mês em todo o País. Em relação à gasolina, depois de aumentos sucessivos, nesta quinta-feira (26) a Refinaria Clara Camarão, em Guamaré, manteve o preço da semana passada para o produto, vendido às distribuidoras a R$ 3,82. Nas bombas, os valores têm sofrido variações, chegando a R$ 7,49 em alguns postos.