
O custo dos alimentos no Rio Grande do Norte começa a ser definido muito antes de chegar às prateleiras e passa, necessariamente, pelas condições das rodovias. A avaliação é feita pelo presidente da Federação de Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern), José Álvares Vieira, que aponta a infraestrutura viária como fator determinante para a competitividade do setor produtivo.
“O caminho que leva o alimento até a mesa do consumidor começa muito antes do mercado — ele começa na estrada”, afirma. Segundo ele, no Estado, a qualidade das rodovias “define não apenas o resultado da safra, mas também o custo final dos produtos que chegam à população”.
Vieira sustenta que o impacto das estradas vai além da logística. “Para quem produz, estrada não é apenas deslocamento. É custo, é risco, é tempo e, sobretudo, competitividade”, escreve. A avaliação dialoga com dados de pesquisa elaborada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), intitulada CNT de Rodovias 2025. A entidade representa o setor de transporte e realiza o principal levantamento sobre infraestrutura rodoviária no País.
O diagnóstico confirma a percepção do setor produtivo. No Rio Grande do Norte, 45% do pavimento das rodovias está desgastado e outros 52% apresentam remendos ou trincas, o que, segundo Vieira, significa que “praticamente toda a malha rodoviária do Estado apresenta algum nível de deterioração relevante”.
A precariedade também se reflete na segurança. O estudo mostra que 55% das rodovias não possuem acostamento — índice que chega a 82% em pontes e viadutos — e que 46% das áreas perigosas não contam com barreiras de proteção. Para o presidente da Faern, esse cenário representa perdas concretas: “Cada buraco, cada remendo, cada trecho sem acostamento representa mais desgaste para o veículo, mais tempo no trajeto e mais risco para o motorista”.
O efeito direto aparece nos custos. A CNT calcula que o Rio Grande do Norte registra um custo logístico adicional de 37,1%, o segundo maior do Nordeste, chegando a 53,6% nas rodovias estaduais. “Uma parcela significativa do valor pago no transporte pode estar sendo perdida em função da infraestrutura deficiente”, afirma Vieira.
Na avaliação do dirigente, esse encarecimento compromete investimentos no próprio campo. Recursos que poderiam ser direcionados para tecnologia, irrigação ou expansão acabam absorvidos por ineficiências logísticas.
O impacto, segundo ele, não se restringe ao produtor. “Nenhum desses produtos chega ao consumidor sem passar por uma estrada”, escreve, ao apontar que a precariedade da malha viária é incorporada ao preço final dos alimentos.
A predominância de pistas simples (91%) e a ausência de faixas adicionais em áreas de relevo acidentado agravam o quadro. “O transporte se torna mais lento e mais arriscado. Quando a sinalização é insuficiente, o risco de acidentes aumenta”, afirma.
Diante desse cenário, a CNT estima que o Estado precise de R$ 2,2 bilhões em investimentos para recuperar sua malha rodoviária, sendo R$ 1,8 bilhão em ações emergenciais. Para Vieira, trata-se de uma agenda prioritária. “Não estamos falando de luxo, mas de condições mínimas para garantir competitividade, segurança e desenvolvimento.”
O dirigente conclui que a responsabilidade pela infraestrutura não pode ser transferida ao setor produtivo. “O produtor rural faz a sua parte. Planta, cria, colhe, investe e arrisca. Mas ele não pode — e não deve — fazer sozinho aquilo que é responsabilidade do poder público: garantir infraestrutura adequada.”
Economia do RN e dependência logística
O Produto Interno Bruto do Rio Grande do Norte atingiu R$ 101,7 bilhões em 2023, com crescimento acumulado de 61,4% desde 2002 . A participação do estado no PIB nacional permanece em torno de 0,93% .
O peso de comércio e serviços, que já supera 40% da economia estadual, amplia a dependência de uma logística eficiente.
Em 2025, a produção agrícola do estado apresentou resultados mistos. Houve crescimento de 56,3% na mandioca e 19,1% na castanha de caju, enquanto culturas como feijão (-54,2%) e milho (-39,3%) registraram retração.
Na pecuária, o abate de bovinos cresceu 70% no comparativo anual, mas o estado ainda figura entre os menores volumes do país.
A geração de energia no estado cresceu 438% desde 2002, atingindo 12,2 GW em 2024, com predominância da fonte eólica . Municípios com forte presença do setor registraram expansões econômicas expressivas, mas ainda enfrentam limitações logísticas.
O Rio Grande do Norte criou 34,2 mil empregos em 2024, com saldo positivo acumulado no período pós-pandemia . Para 2025, a projeção de crescimento do PIB estadual é de 2,3%, em linha com a média nacional.
Mesmo assim, a retração da indústria (-11,8%) evidencia gargalos estruturais, entre eles os custos logísticos elevados.