
A produção de mel de abelha no Rio Grande do Norte tem demonstrado importante potencial nos últimos anos, colocando o estado entre os destaques do país. De acordo com dados da última Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), em 2024, o RN registrou 1,19 mil tonelada de mel, a maior produção da série histórica. Com isso, o setor movimentou R$ 21,4 milhões na economia potiguar. E foi exatamente em 2024 que o segmento ganhou reforço no estado, com o projeto Quintais Mendonça, em João Câmara, fruto de uma parceria entre o Sebrae-RN, o Grupo CPFL Energia e a State Grid, que atende a 30 famílias (cerca de 150 pessoas) de três comunidades indígenas da região.
Ancorado nos pilares geração de renda, preservação do meio ambiente e inclusão social, o projeto conta com investimentos da ordem de R$ 1 milhão. Os produtores atendidos são moradores das comunidades de Serrote de São Bento, Amarelão e Santa Terezinha. Na semana passada, as famílias de Santa Terezinha, assentamento distante cerca de 11 km do Centro de João Câmara, tiveram um momento muito especial: a primeira colheita de mel nos apiários que integram o projeto.
Na localidade, a produção acontece por meio da chamada apicultura – criação de abelhas africanizadas (com ferrão). João Batista, presidente da Associação de Moradores do assentamento, celebrou o feito e destacou o otimismo em torno da atividade. “Na colheita, teve produtor que tirou 120 quilos e teve também aqueles que tiraram 80 quilos. Mas ainda ficou muito mel, porque as abelhas estão bem ‘verdes’, então, estamos todos confiantes e rezando por uma boa safra”, contou João, que também é produtor.
Mona Nóbrega, gerente de Desenvolvimento Rural do Sebrae-RN, destacou como a apicultura e também a meliponicultura (criação de abelhas nativas sem ferrão), podem transformar a realidade das famílias inseridas no projeto. “São produtores de localidades onde o beneficiamento de castanha prevalece como principal fonte de renda. Mas esta é uma atividade muito arcaica e que gera pouquíssimo valor para a comunidade, além de ser um processo que envolve bastante tempo”, disse.
“Então, fizemos um diagnóstico na região com vistas a uma atividade alternativa que não tomasse tanto tempo. O manejo com a abelha para produção de mel atende a esse perfil e pode ser associado a outras atividades, deixando uma renda bem mais atrativa do que aquela proporcionada pela castanha”, acrescentou Nóbrega.
O projeto conta com sete consultores do Sebrae, de áreas como agronomia, engenharia florestal, zootecnia e assistência social, que atuam na formação das famílias desde outubro de 2024. A expectativa com a consolidação do Quintais Mendonça é de que, ao final de cada safra sejam coletadas duas toneladas de mel.
No caso da apicultura, é possível coletar, em média, 20 quilos por colmeia, embora, a depender de fatores como manejo adequado e boa florada, essa quantidade pode girar em torno de 60 a 70 kg/colmeia. Na meliponicultura, a média é de 1,5 kg por colmeia. O produto tem sido vendido a R$ 16 (valor do quilo no atacado) ou R$ 65 (kg no varejo).
Caatinga oferece condições ideais para a produção
A produção de mel depende, primordialmente, da florada (período em que as flores desabrocham) de uma região, uma vez que as abelhas coletam das flores o néctar, que poderá ser coletado depois no apiário ou no meliponário como mel. A diversidade de plantas da Caatinga, região onde o projeto Quintais Mendonça está inserido, favorece a produção e a qualidade do que é produzido.
“A jurema preta e o marmeleiro, muito comuns aqui na Caatinga, garantem uma florada muito interessante, que resulta numa qualidade excelente de mel”, explicou João Batista, presidente da Associação dos Moradores do Assentamento Santa Terezinha.
Em Serrote de São Bento, a aposta de produtores como Júnior Nascimento, de 29 anos, é na meliponicultura, produção a partir da criação de abelha sem ferrão (nativa). Ele mantém no quintal de casa um meliponário com 32 caixas tecnificadas para criação de abelha Jandaíra.

Francisco Melo, que atua como produtor de mel desde criança e é vice-presidente da Associação de Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço (Joca), em Jandaíra, é um dos consultores do projeto. Juntamente com a esposa, Lorene Barbosa, ele decidiu aperfeiçoar a caixa Nordestina, utilizada para a criação de abelha sem ferrão, a fim de facilitar o manejo dos produtores. “A gente notou que os meliponicultores tinham dificuldade em fazer o manejo e a observação dos enxames, então, decidimos fazer alguns ajustes”, conta Lorene.
A caixa tecnificada (ajustada) conta com uma dobradiça que permite que ela seja aberta mais facilmente. A caixa também faz o deslocamento de parte da melgueira (peça instalada no lado superior da colmeia para o armazenamento de mel), a qual se desintegra do ninho, permitindo que menos abelhas sejam levadas para o local de extração do mel, reduzindo o grau de estresse da colmeia.

Além disso, os produtores do projeto contam com um kit de meliponicultura. “Somos pioneiros nesse modelo, justamente para colocar a meliponicultura no patamar que ela merece”, diz Francisco.
O kit é composto por bomba de sucção, balde e filtro de metal. Todo o material é protegido por uma tenda para evitar a invasão de abelhas durante a coleta. “Para a colheita, basta pegar a caixa, abrir os potes de mel, fazer a sucção para o balde e filtrar”, conta Júnior Nascimento. O produtor é um dos mais animados com o projeto e já celebra as mudanças trazidas pela iniciativa.
“Antes, toda a minha visão estava voltada para a castanha e a agricultura, até que as abelhas sem ferrão chegaram e eu entendi como a produção é simples, porque dá para criar até dentro de casa. O projeto é excelente. Somente na semana passada, fiz R$ 1,2 mil de renda. Agora, quero aumentar o número de caixas para 60”, afirmou o produtor.
Beneficiamento movimenta o mercado da região
A produção do projeto é toda comprada pela Boutique da Abelha, marca criada por Gerlânia Bezerra, 51 anos, para beneficiamento do produto. O processamento é feito em uma casa de mel no assentamento Modelo I, em João Câmara. “As melgueiras com os favos são trazidas inicialmente para uma recepção na casa, de onde seguem para uma sala de extração e centrifugação, onde a cera que recobre o favo é retirada. Após isso, o produto vai para o decantador, onde passa 78 horas, no mínimo. Da decantação, o mel vai para o envase e depois, para o mercado”, conta.

Gerlânia Bezerra também é apicultora. Ela conta com uma produção anual de cerca de uma tonelada, que também vai para beneficiamento. “No final das contas, a gente compra mais do que produz. Após o beneficiamento, nosso mel vai para importantes redes de supermercado de Natal e Grande Natal. Iniciamos na apicultura em em 2022, lançamos a Boutique da Abelha em 2023, e nos estabilizamos no mercado em 2025. Para este ano, temos uma meta: aumentar em 30% nosso faturamento”, projeta a produtora de mel.
A aquisição pela Boutique da Abelha de todo o mel produzido no projeto Quintas Mendonça, de acordo com Mona Nóbrega, do Sebrae-RN, chega para resolver um dos principais desafios para o produtor de mel no estado: a dificuldade em encontrar mercado. “A Boutique veio às comunidades, pegou o mel, fez o beneficiamento e colocou no mercado junto com os produtores”, pontua Mona Nóbrega, gerente de Desenvolvimento Rural do Sebrae.
Para Rodolfo Sirol, diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CPFL, empresa apoiadora do projeto, o mais importante é a transformação que o Quintais Mendonça provoca na região. “O Sebrae fez uma atuação com foco na sensibilização e no acompanhamento, para que houvesse a apropriação desse território pelas famílias daqui, ao passo que elas entendessem o trabalho cooperativo que pode ser feito”, falou.