NOVO COMPRIMIDO PODE DOBRAR A SOBREVIDA DE PACIENTES COM CÂNCER DE PÂNCREAS METASTÁTICO

Foto: Alex Régis

Um novo comprimido ajudou pessoas com câncer de pâncreas avançado a viverem mais tempo, relataram pesquisadores no último domingo (31), aumentando as esperanças de melhores tratamentos para um dos tipos de câncer mais letais.

“Embora não cure o câncer, é um grande avanço”, diz Zev Wainberg, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que ajudou a liderar o estudo.

O medicamento chama-se daraxonrasib e bloqueia uma proteína mutada que alimenta o crescimento tumoral em mais de 90% dos casos de câncer pancreático – um alvo que, por décadas, escapou ao tratamento.

O estudo atribuiu aleatoriamente o medicamento experimental ou mais quimioterapia a 500 pacientes cujo câncer metastático havia parado de responder ao tratamento anterior. Os participantes que receberam o comprimido diário apresentaram quase o dobro do tempo de sobrevida, com menos efeitos colaterais graves. Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine e apresentados no domingo, durante o encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago.

Os pacientes que tomaram daraxonrasib viveram, em média, 13,2 meses, em comparação com 6,7 meses entre os que receberam quimioterapia. Embora isso possa parecer uma pequena melhora, Wainberg afirma que é o primeiro medicamento a demonstrar uma vantagem substancial sobre a quimioterapia.

“Trato pacientes com câncer de pâncreas há 16 anos e cheguei a chorar” ao ver os resultados do estudo pela primeira vez, conta Rachna Shroff, do Centro de Câncer da Universidade do Arizona, que não participou da pesquisa, durante o encontro da Asco. Ela ficou impressionada com o fato de que “os pacientes continuavam com o tratamento porque ele lhes proporcionava um benefício duradouro e significativo”.

Os efeitos dos comprimidos eventualmente diminuem, mas os pacientes utilizaram o daraxonrasib por um período significativamente maior do que o grupo que permaneceu em quimioterapia, relatando menos dor e melhor qualidade de vida à medida que seus tumores diminuíam. Muitos ainda estavam usando o medicamento após a análise dos dados, o que, segundo Wainberg, significa que a diferença na sobrevida pode aumentar conforme a continuidade do acompanhamento.

Brian Wolpin, do Instituto de Câncer Dana-Farber, apresentou as descobertas no domingo. Ele afirmou que o medicamento deve se tornar “um novo padrão de tratamento” para o câncer de pâncreas metastático previamente tratado, acrescentando que os pesquisadores também explorarão seu uso em estágios mais precoces da doença, inclusive para verificar se a redução do tumor pode permitir que mais pacientes se tornem elegíveis para cirurgia.

Segundo ele, os efeitos colaterais mais prováveis do uso do comprimido são erupções cutâneas, por vezes graves, e feridas na boca.

A Revolution Medicines financiou o estudo e a Food and Drug Administration (FDA, agência norte-americana semelhante à Anvisa) planeja acelerar a análise do medicamento. Enquanto isso, a agência está permitindo o chamado “acesso expandido” ao medicamento experimental para pacientes que atendam a certos critérios.

O medicamento ganhou atenção pública quando o ex-senador americano Ben Sasse contou no programa “60 Minutes” como passou a sentir menos dor ao tomá-lo. Oncologistas estão sendo inundados com pedidos à medida que o programa de acesso especial é implementado.

O câncer de pâncreas está entre os tipos mais letais, em grande parte porque é difícil de detectar antes que comece a se espalhar para outros órgãos. A American Cancer Society estima que 67 mil novos casos serão diagnosticados nos EUA neste ano, e que mais de 52 mil pessoas morrerão em decorrência da doença (no Brasil, o Inca estima 13.240 novos casos em 2026). A taxa de sobrevida global em cinco anos é de 13%.

Ao contrário de outros tipos de câncer que se beneficiaram de diversas alternativas de quimioterapia, o câncer de pâncreas tem sido mais difícil de combater.

Especialistas que não participaram da nova pesquisa expressaram esperança de que o tratamento possa ser um ponto de virada na busca por novas opções, com dezenas de medicamentos experimentais em desenvolvimento.

O novo medicamento tem como alvo mutações na família dos genes RAS, que normalmente regula o crescimento celular. As chamadas mutações KRAS são especialmente críticas para o desenvolvimento do câncer pancreático. Mas uma estrutura que dificultava a ligação dos medicamentos às proteínas mutadas fez com que esse fator cancerígeno fosse considerado, por muito tempo, “inacessível a medicamentos”.

O medicamento da Revolution Medicines utiliza uma espécie de cola molecular para se ligar a múltiplos subtipos de KRAS. Wainberg afirma que os pesquisadores irão investigar agora se o medicamento apresentou melhor desempenho em determinados subtipos.

O tratamento vai mudar o tratamento do câncer de pâncreas, avalia Andrew Coveler, do Fred Hutchinson Cancer Center, que não participou da pesquisa. “Ele funciona de forma drasticamente diferente”, diz.

Wainberg afirma que outros medicamentos em desenvolvimento têm como alvo subtipos específicos de KRAS. Outras abordagens em estágios iniciais de teste incluem vacinas projetadas para prevenir a recorrência após cirurgia de câncer pancreático, ensinando o sistema imunológico a reconhecer a proteína mutada.

Estadão Conteúdo