A MORDAÇA TAMBÉM É DISCURSO DE ÓDIO. POR MARCUS ARAGÃO

Eles sempre chegam com uma bandeira branca defendendo valores nobres. Mas rapidamente rasgam essa bandeira, que se transforma em inúmeras mordaças — que sufocam a democracia e, por ironia, a própria paz.

As tentativas de restringir a liberdade podem partir de qualquer círculo do poder. Seja em nome da justiça, como no episódio em que uma decisão do STF acabou atingindo indiretamente o sigilo da fonte no Maranhão, ou em nome da educação, quando tentam exumar um assunto enterrado há décadas — como a possibilidade de exigir formação em jornalismo para se ter opinião na mídia.

Esquecem que a liberdade de expressão é a metade de um todo chamado democracia. A outra metade é o direito que o povo tem de ouvir, de escutar a pluralidade de opiniões para, somente assim, formar a sua. Esse mesmo povo quer poder ter opinião nas redes — terá que se formar em jornalismo para poder ter voz?

— Você só existe enquanto houver democracia.

Numa ditadura, você será apenas o resultado de uma linha de produção imposta para que não pense diferente. Sua identidade morrerá junto com a democracia.

A primeira prisão nem sempre tem grades. Ela começa quando você aprende a baixar a voz, depois a escolher as palavras, até chegar o dia em que já não é preciso alguém mandar você se calar, porque o medo já aprendeu a falar dentro de você.

— O efeito colateral nas amizades e na família.

Os desmandos ditatoriais sempre se aceleram e perdem os limites, pois ninguém contesta mais. Lembremos dos “cachorros” — agentes disfarçados do DOI-CODI, infiltrados em assembleias estudantis, fábricas, reuniões de igreja e até em festas e bares. Ou dos “dedos-duros”, civis que entregavam seus colegas com acusações muitas vezes falsas.

Em alguns países, chegaram ao absurdo de estimular os filhos a entregarem seus pais aos professores das escolas. Mesmo que os pais contassem apenas uma piada sobre o regime, já deveriam ser delatados. É a cultura do medo instalada para o controle social.

A defesa da liberdade de expressão não pertence à imprensa. Pertence a você.

— E talvez você ainda não tenha percebido, mas está, neste momento.