
O primeiro leilão nacional para contratação de sistemas de armazenamento de energia em baterias, previsto para dezembro, abre uma nova frente de investimentos para o Rio Grande do Norte. Um dos maiores produtores de energia renovável do País, o Estado poderá utilizar a tecnologia para reduzir o desperdício provocado por restrições de geração, dar mais segurança ao sistema elétrico e aproveitar melhor a infraestrutura dos parques eólicos e solares.
A procura pelo certame indica uma corrida do mercado por espaço nesse novo segmento. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) recebeu o cadastro de 6.091 projetos de armazenamento, que somam 296,8 gigawatts (GW) de potência. O Nordeste concentra 71,1% dessa capacidade, reflexo da expansão das fontes eólica e solar na região e da necessidade de soluções que ajudem a equilibrar oferta e demanda.
O volume cadastrado não corresponde, entretanto, à capacidade que será efetivamente contratada. Os empreendimentos ainda serão submetidos à análise técnica da EPE antes da habilitação definitiva. A quantidade de projetos também supera amplamente a necessidade prevista para o primeiro leilão, o que deve elevar a concorrência entre os investidores.
A contratação será dividida em dois certames. O primeiro será destinado a equipamentos com conteúdo nacional, enquanto o segundo não exigirá a nacionalização dos sistemas. Ambos terão como finalidade contratar disponibilidade de potência para atendimento às necessidades do Sistema Interligado Nacional a partir de 2028.
Para a EPE, o número de projetos “evidencia o elevado interesse dos agentes na implantação dos sistemas de armazenamento no setor elétrico brasileiro”. O mecanismo permitirá que a energia seja guardada durante períodos de maior produção e liberada quando houver aumento no consumo ou redução da geração renovável.
No Rio Grande do Norte, a tecnologia é vista como uma alternativa para reduzir os efeitos do chamado curtailment. O termo define os cortes de geração determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) em situações de sobreoferta, limitações na transmissão ou necessidade de preservar o equilíbrio da rede.
Na prática, parques eólicos e solares são orientados a produzir menos do que poderiam, mesmo quando há vento ou radiação solar disponíveis. A restrição representa perda de receita para os geradores e impede o aproveitamento integral da energia instalada. Como o Rio Grande do Norte reúne elevada concentração de empreendimentos renováveis, está entre os Estados mais expostos ao problema.
Os sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecidos pela sigla BESS, funcionam como reservatórios de eletricidade. A produção excedente é armazenada e posteriormente devolvida à rede nos horários em que o consumo aumenta ou a geração diminui.
“A eletricidade produzida em momentos de vento forte, elevada geração solar ou menor consumo pode ser armazenada para utilização nos períodos de maior demanda”, afirma Marcello Cabral, diretor de Novos Negócios da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). Segundo ele, essa flexibilidade reduz o desperdício e aumenta a previsibilidade da entrega da energia renovável.
As baterias também podem melhorar a qualidade do fornecimento. Por responderem rapidamente às oscilações da rede, os equipamentos auxiliam no controle de tensão e frequência, além de disponibilizarem potência em momentos de pico. Essa característica tende a ganhar relevância conforme cresce a presença de fontes cuja produção varia de acordo com as condições climáticas.
Para a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o ganho não se limita à redução dos cortes. Quando instalados em pontos adequados, os sistemas diminuem a necessidade de transportar grandes volumes de energia por longas distâncias. Isso reduz perdas elétricas na transmissão e pode aliviar trechos sobrecarregados da rede.
O presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, avalia que a adoção das baterias produz benefícios tanto para os empreendedores quanto para o sistema. “Para o gerador, elimina-se o prejuízo da energia desperdiçada e viabiliza-se a venda em horários de maior valor; para o sistema elétrico, o resultado é uma entrega de maior qualidade e estabilidade”, afirma.
A possibilidade de deslocar a venda da eletricidade para períodos de maior demanda também pode alterar a dinâmica financeira dos empreendimentos. Em vez de comercializar toda a produção no momento em que ela é gerada, as empresas poderão armazenar parte do volume e entregá-lo em horários mais valorizados, conforme as regras dos contratos e do mercado de energia.
Na avaliação da ABEEólica, o Rio Grande do Norte reúne condições para receber uma parcela dos aportes. A entidade cita a concentração de parques eólicos, a qualidade dos recursos naturais, a presença de empresas experientes, a disponibilidade de profissionais especializados e a cadeia de fornecedores e prestadores de serviços formada ao redor da geração eólica.
O mercado solar também amplia a demanda potencial por armazenamento. De acordo com a Absolar, o Estado tem 8,88 GW em projetos de geração centralizada fotovoltaica outorgados. Desse total, 2,11 GW já estão em operação. A combinação entre parques solares, usinas eólicas e baterias pode permitir entregas mais regulares ao sistema ao longo do dia.