
Quarenta e cinco anos após os primeiros registros que marcaram o início da epidemia global de Aids, a doença continua representando um desafio de saúde pública no Brasil. Embora os avanços científicos tenham transformado o HIV em uma condição crônica controlável, milhares de pessoas ainda recebem o diagnóstico todos os anos e o preconceito segue sendo apontado por especialistas e pacientes como uma das principais barreiras para o enfrentamento da doença.
O marco inicial da epidemia ocorreu em 5 de junho de 1981, quando autoridades de saúde dos Estados Unidos identificaram os primeiros casos que mais tarde seriam associados à síndrome da imunodeficiência adquirida. Desde então, a doença alcançou dimensão mundial e chegou ao Brasil no ano seguinte.
Dados do DataSUS mostram que, desde 1982, cerca de 1,6 milhão de pessoas viveram com HIV no País. Desse total, aproximadamente 1,1 milhão de casos evoluíram para Aids. Até o fim de 2024, cerca de 402 mil pessoas morreram em decorrência da doença. Apesar dos avanços no tratamento, os números ainda permanecem elevados. Em 2025, foram registrados 25.571 novos casos de HIV no Brasil. Já em 2024, a doença provocou 9.157 mortes no País.
Nas décadas de 1980 e 1990, o diagnóstico era frequentemente associado a uma expectativa de vida reduzida. Personalidades como Cazuza, morto em 1990, o vocalista da banda Queen, Freddie Mercury, em 1991, e o músico Renato Russo, em 1996, tornaram-se símbolos de uma geração marcada pela ausência de tratamentos eficazes. Atualmente, o cenário é diferente. Os avanços da medicina permitiram o desenvolvimento de medicamentos capazes de controlar a infecção e proporcionar qualidade de vida semelhante à da população em geral.
O infectologista Alvaro Costa, do Hospital das Clínicas e subinvestigador da Unidade de Pesquisa do Centro de Referência e Tratamento DST/Aids, afirma que a transformação do tratamento não foi acompanhada por uma mudança equivalente na percepção social sobre a doença.
“Nos anos 1990, era uma doença fatal, com expectativa de vida curta e intenso estigma. Hoje, é uma doença crônica tratada: os pacientes têm uma ótima qualidade de vida, remédios disponíveis no SUS e prevenção. Mas o estigma é o mesmo. As pessoas ainda se escondem, têm medo e são julgadas”, diz.
Segundo o especialista, o preconceito não se restringe ao convívio social e também dificulta o debate público sobre prevenção e novas formas de tratamento.
“Existem bons estudos, com robustez, com comprometimento. Mas diferentemente do câncer, por exemplo, o HIV ainda remete a tabu, à sexualidade das pessoas e à discussão moral”, afirma Costa.
Para ele, movimentos conservadores observados em diferentes partes do mundo também podem impactar negativamente as políticas públicas de enfrentamento da doença. Como exemplo, cita medidas adotadas pelo governo do presidente Donald Trump em 2025, que promoveram cancelamentos de programas relacionados ao HIV/Aids e cortes bilionários em ajuda internacional.
Embora ainda não exista cura nem vacina, os recursos terapêuticos disponíveis atualmente representam uma mudança significativa em comparação às primeiras décadas da epidemia. Nos anos 1990, muitos pacientes precisavam tomar mais de 20 comprimidos por dia, seguindo esquemas complexos e frequentemente acompanhados de efeitos colaterais severos. Hoje, em muitos casos, um único comprimido diário é suficiente para manter o vírus sob controle. Os antirretrovirais modernos conseguem reduzir a carga viral a níveis indetectáveis, impedindo a transmissão sexual do HIV.
Outro avanço importante foi a ampliação da profilaxia pré-exposição, conhecida como PrEP. A estratégia consiste no uso de medicamentos por pessoas que não vivem com HIV, mas apresentam maior risco de exposição ao vírus. Incorporada ao Sistema Único de Saúde em 2017, a PrEP é considerada uma das principais ferramentas de prevenção da atualidade. Quando utilizada corretamente, a profilaxia reduz em até 99% as chances de infecção pelo HIV. Apesar dos avanços, especialistas alertam que o acesso ainda é desigual.
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