
A primeira liberdade foi de papel. Antes de qualquer carteira assinada, antes da promessa de uma profissão, antes mesmo de falar em futuro, adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa no Rio Grande do Norte pediram para soltar pipas. Tinham acabado de construí-las numa oficina de letramento matemático da UFRN. Aprenderam diagonais, área, perímetro, figuras planas. Ali, por meio da lição de geometria, se materializou o desejo de ver alguma coisa feita por eles ultrapassar os muros. O projeto “Aprendizagens para o mundo do trabalho”, executado pelo Centro de Educação da UFRN, financiado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT/RN), chegou a cinco unidades da Fundase/RN entre 2025 e 2026 e atendeu 226 adolescentes.
A proposta era aproximá-los da educação e profissionalização. Davi (nome fictício) estava entre eles. Aos 16 anos, cumpria medida socioeducativa e carregava uma relação antiga com a escola. No caso dele, não era falta de vontade, mas sim vergonha. Vergonha de não entender o que os outros pareciam entender. Parou de estudar no sexto ano, com 10 anos. Nas oficinas do projeto, voltou a encostar nas letras e nos números por outro caminho, desenhando pipas e quadras de futebol. Assim, descobriu que a matemática também podia nascer das coisas que conhecia.
Na escola, Davi lembra mais dos colegas e da bola do que das aulas. Gostava de educação física, de jogar como atacante, de fazer gol. Fora dali, a vida foi estreitando o campo. O pai morreu quando ele ainda era criança, a mãe sustentou a casa, os conselhos da família chegavam antes que ele soubesse escutá-los.
“Minha mãe, minha irmã, sempre falam para eu sair dessa vida, mudar de vida, voltar a estudar”, recorda. Quando entrou no sistema socioeducativo, já tinha deixado a sala de aula. Dentro da unidade, sonha em cursar medicina e diz ter reencontrado uma forma de olhar para si: “Entrei aqui um menino rebelde. Agora vou sair com outra mente.”
Ele fala baixo, às vezes tropeça nas palavras, como quem ainda procura um jeito de dizer o que sente sem transformar a própria dor em defesa. O arrependimento aparece sem discurso pronto. “Aqui dentro não é muito bom, não. Mas dá para refletir e assumir o erro”, diz.

O projeto que encontrou Davi não começou pela pergunta sobre qual profissão aqueles adolescentes poderiam exercer. Começou antes, no ponto em que muitas trajetórias escolares já tinham sido quebradas. Ao longo de 102 encontros e 362 horas de atividades, oficinas de alfabetização, letramento matemático, arte, cultura, corpo e movimento, direitos humanos, cuidado e responsabilização tentaram recompor uma ponte antiga entre aprender e existir no mundo.
A escolha das oficinas não veio pronta da universidade. “Não fizemos um trabalho para eles. Todo o trabalho foi desenvolvido com eles”, resume Cláudia Kranz, coordenadora do projeto na UFRN. Antes de levar conteúdos às unidades, a equipe ouviu adolescentes, gestores e profissionais da Fundase.
Essa metodologia fez a matemática perder a aparência de “castigo”. “Não ia sair da cabeça de um professor universitário ‘vamos trabalhar com pipa’. A pipa era o interesse deles, a partir do interesse desse aprendiz é que os conhecimentos são mobilizados”, explicou Kranz. Para ela, o conteúdo, assim, deixava de ser distante, “asséptico, tecnicista”, e passava a ter pertencimento.
O efeito não apareceu apenas nos cadernos. Segundo a equipe da UFRN, adolescentes que costumavam circular algemados passaram, nos dias de oficina, a ser conduzidos sem algemas.

Trabalho como ressocialização
Para o presidente da Fundase, Herculano Campos, essa é a fronteira que separa a socioeducação da prisão. A medida responsabiliza, mas deve partir da ideia de que o adolescente ainda está em formação. “No sistema prisional, o objetivo é fazer com que a pessoa seja punida pelo crime cometido. No sistema socioeducativo, voltado para adolescentes, a gente parte do princípio de que o adolescente está em processo formativo. O objetivo do sistema é possibilitar rever o projeto de vida”, descreve Campos.
Na avaliação da subprocuradora-geral do Trabalho Ileana Neiva, a primeira aprendizagem necessária não é técnica. Antes de formar eletricistas, costureiros, programadores ou trabalhadores autônomos, é preciso lidar com adolescentes que chegaram ao sistema depois de sucessivas negações de direitos. “A aprendizagem por si só é um meio interessante se vier acompanhada desse letramento em direitos humanos”, afirma.
Para ela, o trabalho ocupa lugar central na vida social. É por ele, muitas vezes, que alguém é reconhecido, apresentado, aceito. Mas, para os adolescentes da Fundase, o caminho até o mundo do trabalho passa por uma pergunta anterior: como falar de profissão a quem teve a escola interrompida, a infância atravessada pela pobreza e o sonho limitado pelo território onde nasceu?
“Muitas vezes tem uma barreira do sonho. A comunidade em que ele vive é tão pobre que ele só consegue se identificar também com profissões que reproduzem a pobreza”, descreveu Neiva. Para ela, a socioeducação precisa romper essa barreira sem apagar a responsabilização pelo ato cometido. “Aquele erro não pode significar toda a vida deles. Eles podem ressignificar a vida e não serem definidos por aquele erro.”
Essa barreira, segundo Cynara Ribeiro, vice-coordenadora do projeto, também é uma barreira do olhar. A sociedade costuma enxergar primeiro o ato infracional, não a vida anterior a ele. “A educação é uma porta que pode abrir a vida desses sujeitos para horizontes aos quais eles muitas vezes não tiveram acesso antes”, ressaltou Ribeiro.
O passo seguinte é transformar essa aprendizagem de base em formação técnico-profissional. Segundo Ileana Neiva, uma nova etapa está prevista com recursos do MPT e participação da UFRN e do Sistema S. A ideia é avançar para cursos práticos, como corte e costura, a partir das habilidades identificadas nas oficinas.
Mesmo quando a profissionalização chegar, outro muro permanecerá de pé. É o estigma. “Se a sociedade não os receber sem discriminação, nosso trabalho não vai ser efetivo”, afirma Ileana. O MPT defende que contratos públicos incluam cotas para aprendizes e egressos, e que empresas privadas aceitem dar oportunidade a quem passou por processos de responsabilização. O problema é que, fora das unidades, o ato infracional costuma continuar funcionando como sentença.
Davi ainda não sabe o tamanho exato do caminho entre a unidade e a medicina. Por meio do projeto, a escola deixou de ser o lugar da vergonha. Virou pipa.
No dia em que os adolescentes pediram para soltar as pipas, a liberdade ainda não era deles. Era de papel, com palitos e linha. Mas tinha sido construída por suas próprias mãos. E, por alguns minutos, antes que alguém voltasse a chamá-los pelo erro, ela voou livre.